A Elitização da Cultura e o Descaso Escolar

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A crise da educação no Brasil e o papel das Ciências Humanas e da Arte

A história da educação no Brasil está profundamente marcada pela exclusão e elitização, com uma clara divisão entre aqueles que têm acesso ao ensino superior e aqueles que permanecem à margem do sistema educacional. Desde os primórdios da colonização, as universidades brasileiras se constituíram como espaços destinados principalmente a uma elite branca, proprietária de terras e com acesso a recursos, enquanto as populações indígenas, negras e os pobres sempre foram historicamente marginalizadas, excluídas dos processos de construção do saber. Essa desigualdade estrutural se reflete no modelo educacional atual, que ainda se configura como uma verdadeira “peneira”, excluindo a maioria da população e tornando o vestibular um “holocausto educacional”, como alguns críticos têm apontado, uma vez que ele condena milhões de jovens ao fracasso e à marginalização. Em suas análises, a historiadora Lilia Schwartz e a filósofa Marilena Chaui, duas das mais importantes pensadoras brasileiras, oferecem uma reflexão crítica sobre essa realidade e nos ajudam a entender o impacto dessa elitização cultural na educação e na formação do país.
Lilia Schwartz, ao abordar a história do Brasil, destaca que as universidades sempre foram espaços de disputa, onde a elite dominava o acesso ao saber, enquanto a população negra, indígena e pobre era sistematicamente excluída. Esse processo de “apartheid educacional” não é algo recente; ele remonta ao período colonial, em que o acesso à educação superior foi sempre restrito aos grupos dominantes, deixando de fora aqueles que formam a verdadeira base da sociedade brasileira. Marilena Chaui, por sua vez, critica o modelo de educação atual, que, influenciado por ideais neoliberais, prioriza a formação técnica voltada ao mercado de trabalho, em detrimento da formação cidadã e crítica. Segundo Chaui, a função da educação deve ser a construção de uma consciência crítica que possibilite a luta contra as estruturas de poder e opressão, algo que se perde quando as ciências humanas e as artes são marginalizadas e tratadas como áreas de menor importância.

A crise educacional brasileira é um reflexo claro da elitização da cultura, um processo que, como apontado por Schwartz e Chaui, exclui as vozes e as perspectivas daqueles que não pertencem à elite econômica e cultural. O sistema educacional, longe de ser democrático, reproduz e perpetua a desigualdade social, privilegiando os que já têm acesso à educação de qualidade, em detrimento da maioria da população, que enfrenta escolas públicas precarizadas, sem infraestrutura adequada e com professores sobrecarregados. Esse modelo, baseado em índices de desempenho e eficiência, ignora as condições sociais e culturais dos estudantes e desconsidera a necessidade de uma educação que desenvolva habilidades de reflexão crítica e pensamento independente. A mercantilização da educação, impulsionada pelo neoliberalismo, transformou a aprendizagem em um produto, que, em vez de formar cidadãos críticos e conscientes, prepara os alunos para se inserirem em um mercado de trabalho cada vez mais desumanizado e precário.
No Brasil, as ciências humanas e a arte têm sido progressivamente marginalizadas no currículo escolar, o que é um reflexo de uma visão utilitarista da educação. Em vez de contribuir para a formação de indivíduos capazes de questionar e transformar a realidade social, essas áreas do conhecimento são tratadas como um luxo acessível apenas a uma elite cultural. Como observa Marilena Chaui, o abandono das ciências humanas é um golpe direto na possibilidade de formação de uma consciência crítica, necessária para a construção de uma sociedade justa e democrática. Nesse contexto, o desprezo pelas ciências humanas e pela arte reflete a decadência do próprio sistema educacional brasileiro, que favorece a formação técnica e a adaptação ao mercado de trabalho em detrimento da reflexão profunda sobre as injustiças sociais e a luta contra as opressões.

O vestibular, tradicionalmente visto como a principal porta de entrada para as universidades brasileiras, é um dos maiores símbolos da exclusão educacional no país. Embora tenha a aparência de um mecanismo de seleção baseado no mérito, ele é, na prática, uma barreira intransponível para a maioria dos estudantes, especialmente para aqueles provenientes das classes sociais mais baixas e de escolas públicas. Como apontado por Lilia Schwartz, o vestibular não é um reflexo da verdadeira capacidade intelectual dos estudantes, mas sim um reflexo das desigualdades estruturais que existem no Brasil. As escolas públicas, em sua grande maioria, não oferecem a preparação necessária para que seus alunos possam competir de igual para igual com os estudantes das escolas privadas, que têm acesso a melhores condições pedagógicas e materiais. Isso cria um ciclo vicioso de exclusão, onde a elite educacional se perpetua, enquanto as camadas mais pobres da população continuam afastadas do acesso à educação superior.
Embora as cotas tenham sido um avanço importante para promover a inclusão de negros, indígenas e pessoas de baixa renda, a realidade é que elas ainda são insuficientes diante da disparidade no acesso à educação básica de qualidade. Muitas universidades públicas falham em cumprir a Lei de Cotas, que estabelece que 50% das vagas sejam destinadas a estudantes oriundos de escolas públicas, e mesmo quando cumpridas, as cotas não são suficientes para garantir a representatividade de todos os grupos excluídos. Esse déficit de inclusão é um reflexo da mentalidade elitista que ainda permeia muitas das instituições de ensino superior no Brasil.

Além de ser marcada pela exclusão, a educação no Brasil também está intimamente ligada à precarização das relações de trabalho. O modelo neoliberal tem transformado a educação em um treinamento para a inserção no mercado de trabalho, onde a formação cidadã, crítica e reflexiva é deixada de lado em nome de uma formação técnica e utilitarista. Esse modelo de “uberização” do trabalho, que explora a precarização das relações laborais, se reflete na maneira como a educação é organizada no Brasil. Em vez de preparar os estudantes para compreenderem e agirem sobre as desigualdades estruturais, a escola brasileira prepara os alunos para a luta constante pela sobrevivência, subordinando-os ao sistema de exploração capitalista.
As ciências humanas e a arte, com sua capacidade de provocar reflexão e contestação das estruturas de poder, são essenciais para a construção de uma sociedade mais justa e democrática. Porém, como Chaui aponta, elas têm sido progressivamente marginalizadas e vistas como áreas sem valor dentro de um sistema que privilegia as disciplinas tecnocráticas voltadas para o mercado. Isso enfraquece a capacidade crítica da sociedade e impede a formação de cidadãos capazes de questionar as injustiças sociais e lutar por um futuro melhor.

A valorização das ciências humanas e da arte é, portanto, fundamental para a superação da crise educacional no Brasil. Essas áreas do conhecimento são as que mais contribuem para a formação de cidadãos críticos e conscientes de seu papel na sociedade. A centralidade dessas disciplinas na educação é a chave para a construção de uma sociedade mais justa, democrática e livre de opressões. Como Marilena Chaui defende, a educação deve ser um espaço de reflexão crítica, onde os alunos sejam preparados não apenas para o mercado de trabalho, mas para a transformação da sociedade. Para isso, é preciso fortalecer a educação pública, garantir o acesso de todos à educação de qualidade e combater a elitização do saber, promovendo uma verdadeira democratização do ensino.
Em síntese, a crise educacional no Brasil é um reflexo das profundas desigualdades históricas e estruturais que permeiam a sociedade brasileira. Superá-la exige, entre outras coisas, a valorização das ciências humanas e da arte, a ampliação das cotas nas universidades e a transformação do vestibular em um mecanismo de inclusão, não de exclusão. Ao reconhecer a importância dessas áreas do saber, o Brasil poderá avançar para uma educação verdadeiramente emancipadora, capaz de formar cidadãos críticos e comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

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