Injúria, ofensas e apologia ao crime: como jogos universitários ficaram marcados por cultura de ódio

Alunos reafirmam-se como 'superiores' por critérios de gênero, de etnia ou de classe social. Ofensas que dizem respeito a questões de raça, de deficiência ou de origem, por exemplo, são consideradas criminosas.
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“Entra por**, escorre sangue”: a frase, de clara apologia à cultura do estupro, estava escrita em uma faixa erguida por 12 alunos de medicina da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, durante um evento esportivo em 15 de março. O grupo inteiro foi expulso pela instituição nesta segunda-feira (28).

A misoginia — definida pela pesquisadora e socióloga Bruna Camilo como “a base da construção de qualquer forma de pensar que oprima as mulheres e atente contra os direitos delas” — não é a única manifestação de ódio que marca os jogos universitários.

“Federal, fala baixinho, quem tem 10 mil não envelhece no cursinho!” x “10 mil reais é o preço que se paga por não ter estudado mais!”
“Eu sou solidário, pago seu curso e vou pagar o seu salário” x “Explode o seu cartão, na maior mensalidade, é lindo ver seu pai pagando a tua e a minha faculdade.”
Os versos acima, entoados por estudantes durante jogos universitários no Brasil, evidenciam que uma das modalidades dessas competições é… a luta de classes. Em uma disputa paralela, que frequentemente inclui ofensas preconceituosas (e até racistas) disfarçadas de “brincadeiras”, estão grupos de torcedores que, por razões financeiras, étnicas ou intelectuais, julgam-se superiores aos demais. Mandam um constante lembrete aos seus oponentes: “aqui não é seu lugar”.

“Nos jogos jurídicos do ano passado [em Vassouras, RJ], fiquei chocada. Antes da partida, estudantes [de uma faculdade particular do Rio] jogaram notas falsas de dinheiro na quadra, para mostrar que o pai deles pode pagar uma mensalidade”, diz Thamires Soares, aluna de direito, aprovada por cotas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

“Durante muito tempo, a gente, que é pobre e preto, não acessava a universidade pública. Agora que conseguiu, precisa vivenciar isso? Reforça o sentimento de não pertencimento.”
Na mesma cidade, um ano antes, alunos de medicina da Unig cantaram os versos: “Sou playboy, não tenho culpa se seu pai é motoboy”.

➡️São casos que se assemelham ao que aconteceu em Americana, em 16 de novembro de 2024, quando estudantes de direito da PUC-SP, na torcida, gritaram “cotistas” e “pobres” para colegas da USP. Nesta reportagem, o g1 mostra que esses episódios não são novidade nem exceção: reproduzem um comportamento violento e elitista que existe, segundo os especialistas ouvidos, desde a origem do esporte moderno.

Em resumo, você verá que:

A origem do futebol, na Inglaterra, já foi motivada por um conflito de classes.
A desigualdade social e o entendimento de que determinados espaços só podem ser frequentados pela elite (seja a “intelectual” ou a econômica) motivam as ofensas.
A rotina de bebida alcoólica e privação de sono, típica de jogos universitários, inflama ainda mais as intrigas.
Em determinados casos, as provocações não são apenas antiéticas, mas também criminosas (já houve registro de casca de banana sendo jogada em campo, para jogadores negros).
A naturalização da violência verbal nos jogos universitários precisa ser rompida, defendem psicólogos esportivos e juristas: é necessário garantir que os responsáveis enfrentem moralmente e juridicamente as consequências de seus atos.

Em 2018, alunos da PUC-Rio perderam o título de campeões após denúncias de terem cometido racismo nos jogos jurídicos em Petrópolis, na região serrana do estado. Uma torcedora da universidade jogou uma casca de banana em direção a um atleta negro da UCP, e outros estudantes da mesma universidade foram flagrados imitando macacos e ofendendo integrantes da Uerj.

“O Brasil é profundamente marcado por uma desigualdade social que separa ricos de pobres e que estabelece um lugar privilegiado para quem tem melhores condições financeiras. Ao chamar uma pessoa de ‘cotista’ [como no caso de novembro de 2024], evoca-se um ‘devolvam essa pessoa para o lugar dela’”, diz Corbo.
“É uma ideia de não pertencimento, de negação de igualdade. Os jovens estão com o ânimo à flor da pele [durante os jogos] e se valem de algo mais profundo, que são os obstáculos sociais, para afirmarem que só o grupo deles pertence àquele espaço [da universidade]. Isso gera traumas nos outros. E sabemos que os cotistas são, muitas vezes, negros. No caso brasileiro, é algo que conversa com o racismo.”

Ana Júlia Viegas, de 23 anos, estuda direito na Uerj e é a primeira pessoa da família a acessar o ensino superior. Nos jogos jurídicos de 2023, no fim da competição, ela ouviu de torcedores de uma universidade particular: “sua mãe trabalha para a minha”.

“Sei que é uma ofensa para o grupo, mas levo para o pessoal. Afeta minha história. Sempre fui uma das únicas negras da sala na escola [particular], porque era bolsista. É como se as mesmas meninas que me excluíram no colégio estivessem de novo comigo na universidade, repetindo o ciclo”, diz.
Ela conta que se sente desconfortável nessas competições universitárias, mas que não deixará de participar delas. “Acho importante estar lá. Sei que são grupos específicos [que xingam], mas se você está ao lado deles e não os repreende, é conivente com o que está acontecendo”, afirma Ana Júlia. “Temos iniciativas no coletivo negro para jogos sem racismo e para a centralização de denúncias.”

Fonte- G1

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