Uma pesquisa realizada em abril com internautas brasileiros revelou um consenso preocupante: 90% dos entrevistados acreditam que os adolescentes não recebem o apoio emocional e social necessário para lidar com os desafios do ambiente digital, especialmente nas redes sociais. O levantamento, feito com mil pessoas de todas as regiões do país, mostra uma percepção generalizada de que os jovens estão desamparados em um cenário cada vez mais marcado por hiperconectividade, exposição e riscos psicológicos.
Os dados indicam que 70% dos entrevistados defendem a presença de psicólogos nas escolas como medida essencial para enfrentar esse cenário. A pesquisa foi conduzida pelo Porto Digital em parceria com a empresa Offerwise, especializada em estudos de mercado na América Latina, após a repercussão de uma série que abordou o impacto das redes sociais na saúde mental da juventude e o distanciamento entre gerações.
Bullying e violência escolar aparecem como os principais desafios para 57% dos respondentes, seguidos por quadros de depressão e ansiedade (48%) e pressão estética (32%). Apesar da crescente preocupação dos pais, apenas 20% afirmaram ter a intenção de utilizar ferramentas de controle digital no futuro. O controle sobre o uso da internet tende a ser mais rígido entre crianças até 12 anos, tornando-se mais flexível à medida que os filhos crescem, mas sem necessariamente ser acompanhado de diálogo estruturado.
O diretor da Offerwise, Julio Calil, destaca que a pesquisa aponta para a urgência na criação de espaços de acolhimento e orientação, não apenas para jovens, mas também para os pais. Ele afirma que o esforço precisa ser coletivo e envolver famílias, escolas, empresas e o poder público. Essa visão é compartilhada por especialistas como o professor Luciano Meira, que alerta para a necessidade de construir relações de confiança e diálogo com os adolescentes, e não apenas impor restrições autoritárias.
A discussão sobre o papel das plataformas digitais também entrou em evidência. Recentes mudanças nas políticas de moderação de conteúdo têm dificultado a remoção de publicações nocivas, enquanto o Supremo Tribunal Federal julga a constitucionalidade do Artigo 19 do Marco Civil da Internet. Paralelamente, o Projeto de Lei das Fake News continua travado no Congresso, deixando em aberto o debate sobre a responsabilidade das big techs na proteção de seus usuários, especialmente os mais vulneráveis.
Luciano Meira defende que o equilíbrio entre liberdade de expressão e responsabilidade é possível e necessário. Para ele, não se trata apenas de regular algoritmos, mas de fortalecer os laços humanos. O professor propõe o uso de tecnologias de monitoramento participativo como apoio técnico à supervisão dos pais, sem abrir mão da conversa franca com os jovens sobre os riscos digitais.
A conclusão reforça a necessidade de um novo pacto social entre o mundo digital e o físico. Iniciativas como a proibição de celulares em escolas têm incentivado o resgate de interações presenciais, criando oportunidades para que crianças e adolescentes desenvolvam relacionamentos mais saudáveis e sustentados por confiança real, e não apenas por curtidas e visualizações.
