Centrais de telemarketing operadas por empresas ligadas a lobistas suspeitos de corrupção foram fundamentais para sustentar o esquema bilionário de descontos indevidos em aposentadorias do INSS, revelado em uma série de reportagens do portal Metrópoles. Além de atrair os beneficiários com falsas promessas de filiação, os call centers também funcionavam como canais de contenção de danos, atendendo milhares de reclamações de aposentados que tinham valores descontados diretamente na folha de pagamento sem autorização.
Uma ex-funcionária dessas centrais, ouvida sob anonimato, relatou como era orientada a conduzir as ligações de aposentados revoltados com os descontos. Os operadores, segundo ela, recebiam um roteiro padronizado para responder às queixas e tinham de justificar as cobranças com explicações como supostas adesões feitas por WhatsApp, chamadas de telemarketing ou até mesmo cliques desavisados em links. “Eles não sabiam, e a gente também que trabalhava lá, nem sabia que isso era uma fraude”, afirmou.
As empresas Callvox e Truetrust Call Center, que operavam no mesmo prédio em Brasília, chegaram a empregar centenas de atendentes no auge da operação fraudulenta, em 2023. A última foi criada em junho daquele ano e tem entre seus donos Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, e Domingos Sávio de Castro — ambos apontados pela Polícia Federal como beneficiários de milhões de reais oriundos das entidades envolvidas no esquema. A própria razão social da empresa, ACDS Call Center, é suspeita de ser uma sigla com as iniciais dos dois sócios.
A PF aponta que esses empresários pagaram propina a dirigentes do INSS por meio de empresas e parentes, incluindo o escritório de advocacia do filho do ex-diretor de Benefícios do instituto, André Fidelis. Outro nome citado pela ex-funcionária é Adelino Rodrigues Junior, responsável pelo dia a dia das operações no call center e representante legal da CBPA, entidade investigada por arrecadar R$ 57,8 milhões em 2023 com as cobranças indevidas.
Durante os atendimentos, os operadores eram orientados a prometer reembolsos em até 10 dias, prazo que foi sendo estendido conforme o tempo passava — primeiro para 20 dias, depois para 30. A atendente acredita que, a partir de novembro de 2024, os reembolsos se tornaram raros. O procedimento era aplicado para diferentes entidades envolvidas, como a Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), a Associação Brasileira dos Contribuintes do Regime Geral de Previdência Social (Abrasprev) e a Associação Brasileira dos Aposentados e Pensionistas da Nação (Abapen).
Foi em dezembro de 2023, após a publicação das reportagens iniciais do Metrópoles, que a Polícia Federal começou a preparar a Operação Sem Desconto, deflagrada em abril de 2024. A investigação estima um prejuízo de até R$ 6,3 bilhões aos cofres públicos e levou à queda do presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, e do então ministro da Previdência, Carlos Lupi. Enquanto isso, os operadores do telemarketing seguiam enganando aposentados em um sistema meticulosamente organizado para lucrar com a desinformação.
