Um novo estudo publicado na revista Science aponta que as geleiras do planeta perderão, de forma irreversível, pelo menos 39% de sua massa em comparação com o ano de 2020, mesmo que as metas climáticas mais ambiciosas sejam alcançadas. Essa perda, segundo os pesquisadores, resultará em uma elevação de aproximadamente 113 milímetros no nível global dos oceanos, com impactos diretos para milhões de pessoas em todo o mundo.
O cenário se agrava consideravelmente se as atuais políticas climáticas forem mantidas, levando a uma perda estimada de 76% da massa das geleiras até os próximos séculos. Tal trajetória compromete a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius, estabelecida pelo Acordo de Paris em 2015 e considerada crucial para evitar os efeitos mais catastróficos das mudanças climáticas.
De acordo com James Kirkham, glaciologista da Iniciativa Climática da Criosfera Internacional, a diferença entre os dois cenários representa o limiar entre uma situação ainda gerenciável e uma crise incontrolável. A diminuição das geleiras pode comprometer seriamente o abastecimento de água, a geração de energia e a irrigação em países que dependem do degelo.
Apesar das projeções alarmantes, os autores da pesquisa mantêm um tom de alerta construtivo. Lilian Schuster, da Universidade de Innsbruck, afirma que o estudo também pretende transmitir esperança: “A cada décimo de grau que conseguimos evitar, preservamos mais massa de gelo”. A mensagem é reforçada por Harry Zekollari, pesquisador da Vrije Universiteit Brussel e da ETH Zürich: “Não somos ativistas. É a ciência que está falando”.
A pesquisa se diferencia de estudos anteriores por projetar os efeitos das mudanças climáticas além do ano 2100. Os cientistas utilizaram oito modelos de geleiras para simular, ao longo de séculos, a evolução do volume de gelo global. Mesmo com uma faixa de variação entre 15% e 55% de perda, o valor médio de 39% evidencia uma tendência unânime entre os modelos: quanto maior o aquecimento, maior a perda.
Guðfinna Aðalgeirsdóttir, professora da Universidade da Islândia que não participou do estudo, reforça a clareza do recado científico: “Todos os modelos mostram a mesma coisa”. Para os especialistas, as incertezas não diminuem a urgência da questão, mas indicam a necessidade de avançar na comparação e no refinamento das projeções.
Com o planeta caminhando para até 2,9 graus de aquecimento até o fim do século, o estudo amplia a pressão sobre governos para revisar seus compromissos climáticos. Os dados indicam que o tempo para frear a destruição das geleiras está se esgotando — e com ele, a capacidade de muitos países de se adaptarem às transformações que virão.
