No coração da Palestina, sob o sol ardente do Vale do Jordão, nossos ancestrais ergueram um dos mais antigos testemunhos da civilização: Tell es-Sultan, na atual Jericó. Ali, entre 10.500 e 9.600 a.C., sobre a nascente de ‘Ein es-Sultan, que até hoje brota em meio à paisagem, comunidades humanas começaram a fixar raízes, trocando o nomadismo por algo inédito: a permanência.
Por volta de 9.400 a.C., já havia cerca de 70 habitações circulares com cerca de cinco metros de diâmetro, feitas de barro e palha. Foi sobre essa nascente que se construiu uma muralha de pedra e uma torre cônica de quase nove metros de altura, ladeadas por um fosso profundo. Não era apenas uma estrutura defensiva: era um gesto político, simbólico, uma forma de dizer “estamos aqui”. Alguns estudiosos sugerem até que a torre teria sido orientada segundo eventos astronômicos, como o solstício de verão, espelhando a relação da comunidade com o tempo, o cosmos e o pertencimento.
Mais do que um aglomerado de casas, aquela era uma invenção radical: o nascimento da cidade como ideia. A partir dali, viver em grupo já não era apenas sobrevivência; era pacto. Era a construção de regras, de memória coletiva, de espaços públicos e do sentimento de pertencer a algo maior que a própria existência. Foi o surgimento de um princípio que hoje chamamos de cidadania, não apenas um contrato jurídico, mas a noção de que viver junto implica cuidados mútuos, responsabilidades e, sobretudo, direitos.
É profundamente trágico, no entanto, que o mesmo território que testemunhou o início da civilização urbana seja hoje cenário da mais brutal negação do direito de permanecer. Quando se pergunta qual foi a primeira cidade do mundo, a pergunta não é apenas arqueológica. É também ética. É uma pergunta sobre a gênese da convivência: onde foi que o humano deixou de ser apenas clã e se tornou comunidade? Onde nascemos como sujeitos políticos?
E então somos levados de volta à Palestina.
Não se pode falar de Tell es-Sultan, nem de Jericó, Hebron, Gaza ou Nablus, sem ver o esforço sistemático de apagamento. Não se trata de uma mera disputa territorial: trata-se da recusa deliberada de uma população inteira como sujeito de história, de cultura e de direito. Um povo a quem se nega não só a terra, mas o tempo. Não só o lar, mas o passado. E o futuro.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, em seu artigo 15, afirma que “todo ser humano tem direito a uma nacionalidade” e que “ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade”. O artigo 17 garante o direito à propriedade. O primeiro artigo, que funda o texto, proclama que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”.
Mas por que, então, se permanece indiferente? Talvez porque esvaziaram o que é a cidadania. Reduziram-na a números de protocolo: CPF, passaporte, carteira de trabalho. Esqueceram que cidadania é, antes de tudo, o direito de existir com dignidade entre os seus. É ter chão, nome, memória e voz. É saber que o território que se pisa reconhece o seu corpo como legítimo.
A cidade, como invenção humana, foi uma das maiores expressões da imaginação política. Quando Tell es-Sultan se ergueu, o ser humano descobriu que era possível algo além da luta por comida: era possível planejar, criar, amar, cuidar, permanecer. Mas hoje, esse mesmo amanhã é negado a milhões.
A história nos devolve um espelho. A primeira cidade do mundo nos olha nos olhos e pergunta: que tipo de civilização somos nós, se aceitamos que a mais antiga entre todas seja silenciada? Talvez ainda reste tempo para reaprender, com Tell es-Sultan, o que significa permanecer, e fazer o outro permanecer também.
