Quatro nomes ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro prestaram depoimento nesta terça-feira em mais um capítulo do inquérito que investiga a tentativa de obstrução da Justiça envolvendo a suposta trama golpista para mantê-lo no poder. Foram ouvidos os advogados Fábio Wajngarten, Paulo Cunha Bueno, Eduardo Kuntz e o coronel da reserva Marcelo Câmara, ex-assessor do ex-presidente. Os três primeiros foram escutados simultaneamente, em salas distintas da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo, por videoconferência com Brasília. Já Câmara foi interrogado presencialmente na capital federal, onde segue preso.
A oitiva foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), após a defesa de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, entregar documentos com alegações de que familiares do militar teriam sido pressionados por Wajngarten e Bueno. Segundo os relatos, as investidas teriam como objetivo obter detalhes sobre a delação de Cid e influenciar na escolha de seus advogados. Kuntz também passou a ser investigado por, supostamente, tentar contato repetido com a filha menor de idade de Cid.
Durante as mais de cinco horas de depoimentos, nenhum dos envolvidos reconheceu as acusações. Wajngarten, que deixou o prédio da PF por volta das 17h20, negou ter abordado familiares de Cid e classificou como caluniosas as acusações. Disse que pretende ingressar com ações judiciais por denúncia falsa, embora não tenha indicado quem pretende processar. Afirmou que não mantém contato com a família de Cid desde agosto do ano passado e que o único episódio com a filha do militar foi uma conversa casual sobre hipismo. “Nunca perguntei sobre delação, depoimento, nada”, declarou.
Mais cedo, o advogado Paulo Cunha Bueno, atual defensor de Bolsonaro, deixou a sede da PF sem dar declarações. Já Eduardo Kuntz, que representa Marcelo Câmara, foi o último a sair, às 20h. Disse que sua atuação foi “totalmente dentro dos parâmetros legais”, negando qualquer conduta ilícita ou antiética.
As acusações que motivaram os depoimentos incluem a tentativa de interferência na delação de Cid, peça central na investigação que examina o possível envolvimento de militares e assessores em uma articulação para anular os resultados das eleições de 2022. A suposta obstrução seria mais um elo entre essa apuração e a atuação jurídica que orbitou o entorno de Bolsonaro.
Questionado sobre o contexto político do caso, Wajngarten foi enfático ao afirmar que a investigação busca tirar Bolsonaro da disputa eleitoral de 2026. “Uma eleição sem o presidente Bolsonaro não é uma eleição democrática”, declarou.
A Polícia Federal, como de praxe, não comentou oficialmente as oitivas. A investigação segue sob sigilo e novas diligências estão previstas, incluindo a intimação formal dos envolvidos para novos esclarecimentos.
