Garimpo ilegal na Amazônia expõe trabalhadores a doenças, violência e desaparecimentos

O levantamento revela que garimpeiros e seus familiares enfrentam uma dura realidade de violações
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A atividade de garimpo ilegal na Amazônia, longe de representar oportunidade, tem se mostrado uma armadilha marcada por doenças, violência extrema e desaparecimentos. Essa é a conclusão de um estudo conduzido pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam-Brasil) e pelo Instituto Conviva, que escutou 389 pessoas entre 2022 e 2024 nas cidades de Manaus (AM), Altamira (PA), Porto Velho (RO) e Boa Vista (RR).

O levantamento revela que garimpeiros e seus familiares enfrentam uma dura realidade de violações, com relatos de assédio, estupro, tentativas de assassinato e doenças graves relacionadas à exposição ao mercúrio. Em 2024, os principais problemas de saúde identificados foram gota, malária, tuberculose, bronquite, pneumonia e reumatismo. A expectativa de vida média entre esses trabalhadores é de apenas 55 anos, duas décadas abaixo da média nacional.

As causas de morte também refletem as condições precárias e perigosas em que atuam: afogamentos, soterramentos, ataques de animais e picadas de cobras, insetos e aracnídeos compõem o quadro alarmante.

Mais do que números, o estudo dá voz às histórias por trás das estatísticas. Como a de Adriano, que chegou ao garimpo ainda adolescente e resume sua trajetória com uma frase dura: “No garimpo, a gente aprende a não esperar nada da vida”. Ou a de Valéria, mergulhadora na Terra Indígena Yanomami, que sobreviveu a três tentativas de assassinato após encontrar veios de ouro que deveriam lhe render parte dos lucros. “Eles cortavam a mangueira com a gente amarrada lá embaixo”, contou ela.

O impacto sobre mulheres e meninas é descrito como brutal. O estudo aponta tráfico humano envolvendo garotas de apenas 12 anos, forçadas à servidão sexual e submetidas a anos de abusos, sob ameaça e endividamento. Muitas sequer reconhecem que foram traficadas, tamanha a normalização da violência nos garimpos.

A invisibilidade e a impunidade são agravadas pela ausência do Estado nas áreas dominadas pelo garimpo ilegal. É o que vive Rosa, mãe de um jovem desaparecido há 18 anos. Sem corpo, sem resposta e sem amparo, ela descreve os garimpos como “terra de ninguém”. “O direito sagrado que uma mãe tem de enterrar o corpo do filho foi retirado de mim”, desabafou.

O estudo também aponta que o garimpo ilegal está cada vez mais associado a outras práticas criminosas, como tráfico de drogas, armas e pessoas, consolidando-se como uma rede de exploração e violência que atinge trabalhadores, comunidades e o meio ambiente.

Para os pesquisadores, o garimpo não é uma escolha, mas consequência da desesperança. O deslocamento de homens e mulheres para essas áreas ilegais ocorre por falta de alternativas reais de vida, emprego e dignidade. Um ciclo de miséria que contamina, explora e mata em silêncio sob a promessa ilusória de ouro fácil.

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