Colisão recorde de buracos negros desafia teorias sobre formação no universo

O evento foi detectado por instrumentos do Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferômetro Laser (LIGO)
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A maior colisão já registrada entre buracos negros revelou novos mistérios sobre a origem dessas estruturas cósmicas e pode mudar o entendimento atual da formação estelar. Batizado de GW231123, o evento foi detectado por instrumentos do Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferômetro Laser (LIGO), nos Estados Unidos, que captaram as ondulações geradas pela fusão de dois buracos negros com massas de aproximadamente 100 e 140 vezes a do Sol.

Essas ondas gravitacionais, previstas por Albert Einstein há mais de um século, tornaram-se observáveis somente a partir de 2016, graças à sensibilidade extrema do LIGO e de seus observatórios parceiros, o Virgo, na Itália, e o KAGRA, no Japão. Desde então, mais de 300 eventos do tipo já foram registrados, mas GW231123 se destaca não apenas pela escala, como por desafiar explicações convencionais sobre a origem de buracos negros.

Segundo os cientistas, os objetos envolvidos na colisão estão dentro de uma chamada “lacuna de massa” — uma faixa teórica entre 60 e 130 massas solares onde, supostamente, buracos negros não se formam a partir da morte de estrelas massivas. A presença desses objetos nesse intervalo levanta a hipótese de que sejam fruto de fusões anteriores, acumulando massa ao longo de uma espécie de reação em cadeia cósmica.

A possibilidade de que os buracos negros do GW231123 tenham se formado por múltiplas fusões sucessivas reforça uma teoria até agora especulativa. “É um forte indício de que esse outro processo está ocorrendo”, afirmou o físico Mark Hannam, da Universidade de Cardiff, integrante da Colaboração Científica LIGO e um dos autores do estudo publicado no repositório Arxiv.

Outro elemento que chama a atenção é a rotação dos buracos negros envolvidos, que estariam girando quase no limite físico permitido. Isso adiciona mais complexidade ao caso e pressiona os modelos tradicionais a serem revisitados.

Embora ainda haja incerteza sobre a distância do evento — que pode estar até 12 bilhões de anos-luz da Terra —, os sinais captados foram suficientemente claros para indicar a magnitude do choque cósmico. Como buracos negros não emitem luz ou qualquer outro tipo de radiação eletromagnética, só podem ser observados por meio das ondas gravitacionais geradas em colisões como essa.

Para os astrônomos, a descoberta reforça o papel das ondas gravitacionais como uma nova janela de observação do universo. “Antes do advento da astronomia de ondas gravitacionais, só podíamos detectar buracos negros que estavam ativamente atraindo matéria. Agora, vemos também aqueles que crescem ao se fundirem com outros”, destacou Dan Wilkins, do Instituto Kavli de Astrofísica e Cosmologia de Partículas da Universidade Stanford.

Se confirmada a hipótese das fusões sucessivas, os dados do GW231123 apontam para a existência de uma nova população de buracos negros, com massas intermediárias entre os que nascem de estrelas e os gigantescos encontrados no centro das galáxias. Essa descoberta poderá alterar profundamente o entendimento sobre a evolução das estruturas mais enigmáticas do cosmos.

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