Mar Cáspio enfrenta colapso silencioso e especialistas alertam para desastre irreversível

A região de Aktau agora encara uma paisagem árida e rochosa, reflexo de uma crise hídrica que se intensifica há décadas
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As águas azul-esverdeadas do mar Cáspio, onde crianças nadavam e pescadores sustentavam suas famílias, estão desaparecendo em ritmo alarmante. A região de Aktau, no Cazaquistão, que antes se debruçava sobre o litoral, agora encara uma paisagem árida e rochosa, reflexo de uma crise hídrica que se intensifica há décadas. Para Azamat Sarsenbayev, ecoativista local, o cenário é desolador. “É muito difícil de ver”, resume.

A mais de 1.600 quilômetros dali, no Irã, o fotógrafo Khashayar Javanmardi registra margens secas e águas poluídas perto de Rasht, na costa sul. O mar que uniu povos e alimentou culturas se transforma diante dos olhos de quem cresceu à sua beira. E o que se vê é a soma de negligência ambiental, ambição e impacto da crise climática.

O mar Cáspio, maior corpo de água interior do planeta, compartilha fronteiras com cinco países — Cazaquistão, Irã, Azerbaijão, Rússia e Turcomenistão — e abastece milhões de pessoas com recursos pesqueiros, água potável e receita turística. Também guarda reservas estratégicas de petróleo e gás. Ainda assim, segue minguando, em parte pelo aumento das temperaturas, mas também por ações humanas diretas, como a construção de barragens no rio Volga, seu principal fornecedor de água.

Desde 2005, o nível das águas caiu cerca de 1,5 metro. Pesquisas científicas projetam uma redução de até 30 metros até o fim do século, o que poderia secar completamente a parte norte do Cáspio — a mais rasa, localizada no Cazaquistão. Em um cenário de aquecimento global mesmo moderado, milhões de pessoas perderiam seus meios de vida, a biodiversidade local seria devastada e tensões geopolíticas poderiam escalar.

A região já viu isso acontecer antes. O mar de Aral, que também banha o Cazaquistão, praticamente desapareceu, vítima de desvios de rios para irrigação. Agora, o Cáspio parece seguir o mesmo caminho. A pesca está em declínio, o turismo perde força e as indústrias navais enfrentam dificuldades para manter operações em cidades portuárias que estão ficando longe demais da água.

A fauna local sofre silenciosamente. O esturjão selvagem, fonte do caviar mais famoso do mundo, está ameaçado de extinção. As focas-do-cáspio, únicas no planeta, desaparecem de forma quase invisível. Em 2009, cientistas contaram 25 mil delas nas ilhas Durnev; em 2020, nenhuma foi vista.

Apesar da gravidade da situação, soluções coletivas ainda parecem distantes. Os países costeiros têm interesses conflitantes, e muitos seguem expandindo suas atividades extrativistas mesmo diante do colapso ambiental. O Azerbaijão, anfitrião da COP29 no próximo mês, declarou recentemente que o encolhimento do Cáspio é “catastrófico”, mas ao mesmo tempo avança em sua produção de combustíveis fósseis.

Enquanto líderes se preparam para discutir o clima em Baku, ativistas como Sarsenbayev e artistas como Javanmardi tentam manter o Cáspio no centro das atenções com imagens, alertas e resistência. Eles sabem que a salvação do maior lago do mundo depende de mais do que promessas em cúpulas internacionais.

“Este é o maior lago do mundo”, lembra Javanmardi. “Todas as pessoas deveriam considerá-lo algo importante.” O recado, embora simples, resume o que está em jogo: o futuro de uma joia ecológica e cultural que pode desaparecer diante da indiferença global.

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