Ensino integral eleva desempenho de estudantes no Enem, aponta pesquisa

Entre os principais resultados, destaca-se a prova de redação, em que os alunos de escolas integrais alcançaram, em média, 12 pontos a mais.
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Um novo levantamento do Instituto Sonho Grande, com base nos microdados do Enem 2024, confirmou o que outras pesquisas já vinham apontando: estudantes do ensino médio em tempo integral têm desempenho superior em comparação aos alunos de escolas com jornada parcial. O estudo revela que a modalidade de tempo integral não apenas melhora as notas, mas também amplia as oportunidades educacionais e profissionais dos jovens brasileiros.

Entre os principais resultados, destaca-se a prova de redação, em que os alunos de escolas integrais alcançaram, em média, 12 pontos a mais. Nas instituições onde 100% das matrículas são integrais, a diferença salta para 27 pontos. Já em matemática, o ganho foi de cinco pontos. A diretora-executiva do Instituto Sonho Grande, Ana Paula Pereira, reforça que o modelo fortalece a aprendizagem: “Estudantes do ensino médio integral aprendem mais. Essa é uma tendência que os dados vêm confirmando em diferentes contextos e regiões.”

Nordeste lidera expansão e resultados

A região Nordeste aparece como protagonista na implementação do ensino integral. Segundo o Censo Escolar 2024, Pernambuco, Ceará, Paraíba, Piauí e Sergipe lideram o ranking nacional de matrículas integrais no ensino médio. Em contrapartida, o Distrito Federal e Roraima apresentam os menores percentuais.

O impacto é visível nos resultados. No Nordeste, estudantes do tempo integral tiveram nota média 18 pontos maior no Enem. Na redação, a vantagem foi ainda mais expressiva: 48 pontos a mais. No Ceará, a diferença chega a impressionantes 134 pontos. Das 100 escolas cearenses com melhor desempenho no Enem, 98 adotam o modelo integral.

Em Pernambuco, o bom desempenho também está relacionado à consolidação do modelo, implantado de forma sistemática há anos. Segundo Ana Paula Pereira, os estados nordestinos que avançaram no ensino integral o fizeram por meio de prioridade política, formação docente e gestão pedagógica contínua.

Mais presença no Enem, mais chances no futuro

Outro estudo, conduzido pelos economistas Naercio Menezes Filho e Luciano Salomão, em parceria com o Instituto Natura, reforça os benefícios. Estudantes do tempo integral têm 16,5% mais participação no Enem e desempenho superior, especialmente em redação (29 pontos a mais, em média).

Mas o impacto vai além das provas. Dados de diferentes pesquisas indicam que o ensino integral está associado a maiores chances de ingresso no ensino superior, empregos mais qualificados e salários melhores. Além disso, contribui para a redução da violência, gravidez precoce, desnutrição e evasão escolar.

“O Ensino Médio Integral não é apenas uma política educacional — é uma estratégia de desenvolvimento social e econômico”, destaca Ana Paula.

Avanços e desafios

O Brasil avançou nos últimos anos. Entre 2020 e 2024, a proporção de estudantes do ensino médio em tempo integral subiu de 14,1% para 24,2%. Apesar disso, ainda está abaixo da meta do Plano Nacional de Educação (PNE), que previa 25% até 2024.

Para ampliar o modelo, Ana Paula aponta três desafios principais:

Financiamento estável — com apoio de programas como o “Escola em Tempo Integral” e repasses diferenciados via Fundeb;

Apoio financeiro a estudantes vulneráveis — por meio de iniciativas como o programa Pé-de-Meia, do MEC;

Planejamento e expansão estruturada das redes estaduais, com foco em qualidade e sustentabilidade.

Programa federal dá fôlego à expansão

Lançado em 2023, o programa Escola em Tempo Integral, do Ministério da Educação, quer criar 3,2 milhões de novas matrículas em todas as etapas da educação básica até 2026. O objetivo é garantir jornada escolar de pelo menos sete horas diárias, com apoio técnico e financeiro a estados e municípios.

A diretora do Instituto Sonho Grande avalia que o programa federal ajuda a consolidar o modelo como política de Estado, menos vulnerável a mudanças políticas. Ainda assim, defende que o Brasil adote metas mais ousadas: “Queremos ver, até 2035, ao menos 50% das matrículas e 70% das escolas em tempo integral — com foco especial nos estudantes mais vulneráveis.”

Por fim, ela reforça que o sucesso do modelo não depende apenas do tempo estendido, mas de um currículo acolhedor, conectado à realidade dos jovens. “A carga horária sozinha não basta. É preciso um projeto pedagógico que faça sentido para o estudante.”

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