Idosas viram rés em fraudes do INSS sem saber: “Achei que era só um empréstimo”

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O golpe não parou nos bolsos. Em um esquema que manchou ainda mais as investigações sobre fraudes em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), idosas cearenses foram colocadas como dirigentes de uma associação fantasma, sem jamais terem exercido qualquer função de liderança. Hoje, elas enfrentam bloqueios judiciais, dívidas e o medo de punições por crimes que dizem não ter cometido.

A história envolve a Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional (Aapen), uma das entidades investigadas por descontos indevidos em benefícios previdenciários, e que agora está no centro de mais um escândalo: o uso de “laranjas” para encobrir fraudes.

“Só queria um empréstimo”

Moradora do bairro Antônio Bezerra, em Fortaleza, uma aposentada de 62 anos relata ter sido abordada em 2023 por uma conhecida da vizinhança. A promessa: um empréstimo de R$ 1.500. O que ela não sabia é que, ao assinar os papéis, estava sendo registrada como presidenta da Aapen, com firma reconhecida em cartório.

Analfabeta e sem qualquer formação jurídica ou administrativa, a idosa conta que mal sabia escrever o próprio nome — e nunca teve qualquer cargo formal. “Levaram ela ao cartório, disseram que era só para liberar o dinheiro. Ela não sabe nem o que é ata ou estatuto”, informa a Defensoria Pública do Estado do Ceará, que assumiu sua defesa.

Em 2025, ela foi surpreendida com mais de 200 intimações judiciais. Estava sendo processada em vários estados do país. Tinha os bens bloqueados — mesmo sem possuir patrimônio algum além da aposentadoria e de um salário extra como manicure eventual.

Um cargo que nunca ocuparam

O caso dela não é isolado. Pelo menos seis mulheres foram registradas como diretoria da Aapen em dezembro de 2023 — cargos como presidente, vice, secretária e conselheiras fiscais. Segundo documentos acessados pela reportagem, duas delas afirmam nunca ter tido qualquer envolvimento com a entidade. Não sabiam sequer que seus nomes estavam em atas de assembleias.

Curiosamente, os documentos foram todos registrados com firma reconhecida em um cartório no município de Mombaça, a quase 300 km de onde todas elas moram: a Região Metropolitana de Fortaleza. “Não faz sentido que todas tenham viajado esse percurso para um reconhecimento de firma. É um indício sério de falsificação”, aponta a defensoria.

Em ao menos um caso, a vítima não reconheceu a assinatura. Em outro, o nome de uma senhora de 72 anos, analfabeta e vulnerável, aparece como presidenta da entidade — mesmo sem nunca ter ouvido falar da Aapen até ser notificada pela Justiça.

Réus sem saber

A fraude nos descontos do INSS só veio à tona em abril de 2025, após uma operação da Polícia Federal. A partir de então, começaram a surgir ações judiciais contra as associações envolvidas — e, com isso, os nomes das supostas dirigentes passaram a aparecer como rés.

A reação das idosas foi de choque e desespero. Algumas descobriram que tinham contas bloqueadas, nomes negativados e ações judiciais em estados onde nunca pisaram. “Ela não tem condições de se defender sozinha, está com medo até de sair de casa”, relata um defensor que acompanha um dos casos.

A Defensoria Pública do Ceará ingressou com diversas ações pedindo a exclusão imediata dos nomes das vítimas dos quadros da Aapen e a anulação de qualquer responsabilização civil, criminal ou financeira.

Fraude bilionária

A Aapen é apenas uma entre as dezenas de entidades sob investigação pela Controladoria-Geral da União (CGU) e pelo Ministério da Previdência Social. O esquema, segundo estimativas oficiais, desviou R$ 6,3 bilhões dos aposentados entre 2019 e 2024, através de descontos associativos não autorizados.

Para legitimar os descontos, as associações criaram documentos falsos de filiação — alguns até com dados de pessoas já falecidas. Entre 2019 e fevereiro de 2025, o INSS pagou benefícios a 275 mil mortos, gerando um prejuízo de R$ 4,4 bilhões aos cofres públicos.

O governo federal anunciou a devolução dos valores cobrados indevidamente e estima que mais de 1,9 milhão de pessoas serão beneficiadas com os ressarcimentos.

Justiça lenta, danos irreparáveis

Enquanto o processo caminha na Justiça, as vítimas relatam consequências que vão além do financeiro: danos emocionais, sensação de injustiça, noites sem dormir e o peso de serem tratadas como criminosas. “É uma senhora, simples, que passou a vida contribuindo com o INSS. Agora, com 70 anos, vê o nome envolvido em fraudes que não entende, sem saber onde buscar socorro”, descreve um trecho de uma das ações da defensoria.

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