Especialistas apontam que o setor de energias renováveis brasileiro vem enfrentando uma crise, e o Ceará é um dos estados mais afetados. Além das perdas energéticas milionárias, o cenário afeta uma seara igualmente significativa: o fator humano.
Segundo o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Ceará (Sindmetal-CE), Francisco Silveira, entre 2024 e 2025 houve de cinco a seis mil demissões no setor, somando os desligamentos nas empresas Aeris, Vestas e outros empreendimentos. Os cargos, de profissionais ligados ao sindicato, variam desde chão de fábrica até o setor administrativo.
Para o consultor em energias e sócio fundador da empresa Energo Soluções em Energias, Adão Linhares, existe um aumento perceptível nas demissões industriais da área no Estado, sendo o acréscimo no desemprego no setor industrial de componentes eólicos um dos efeitos mais imediatos do cenário.
“Essa crise tem impacto direto no emprego no setor, com possibilidade de aumento nas demissões, especialmente pela paralisação de novos contratos e projetos. Isso representa o maior desaquecimento desde os anos 2000”, alerta.
Conforme noticiado pelo Diário do Nordeste, desde 2024, a Aeris Energy já demitiu mais de 5 mil funcionários ao longo da crise no setor, de acordo com o Sindicato dos Metalúrgicos do Ceará (Sindmetal-CE). A fabricante brasileira de pás utilizadas em geradores de energia eólica está localizada no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP).
Já em outubro deste ano, a Vestas, maior fabricante de turbinas eólicas do mundo, realizou 41 demissões em sua planta em Aquiraz.
A nível nacional, um levantamento da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica) estima que o setor eólico perdeu cerca de 10.000 empregos diretos entre 2024 e 2025, com risco de aumentar nos próximos meses e em 2026, caso novos contratos não sejam fechados. Os números consideram todas as etapas da cadeia de fabricação.
No caso do mercado de energia solar, o contexto de recessão também está presente. É o que reforça o vice-presidente de Cadeia Produtiva da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Nelson Falcão.
“Houve duas coisas: empresas que fecharam ou reduziram seus quadros e empresas que cancelaram projetos que estavam previstos. Houve uma redução muito grande no volume de negócios solares na região (Nordeste) e, por consequência, demissões ou suspensão de contratações que estavam previstas”Nelson Falcão
Vice-presidente de Cadeia Produtiva da Absolar
Procurada, a Aeris informou que, entre 2024 e 2025, houve 3.700 demissões. A companhia esclarece, ainda, que não há novos movimentos previstos.
Já a Vestas reforça que “realiza ajustes regulares em suas operações, sempre em linha com a dinâmica do mercado e a demanda dos clientes”. Por meio de nota, a empresa comunicou que inaugurou, em outubro, um novo Hub Regional de Service da Vestas em Natal (RN), mas que o curtailment continua sendo um desafio no setor.
“Além disso, a geração distribuída (GD) segue beneficiada por subsídios que criam distorções e comprometem a isonomia entre as fontes renováveis. Se queremos garantir competitividade e sustentabilidade no longo prazo, o Brasil precisa avançar em uma reforma estrutural que corrija assimetrias e fortaleça a eficiência do sistema elétrico”, completa.
Já segundo levantamento do Observatório da Indústria, da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), a partir dos dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), as classificações de empregos que englobam o setor de energias renováveis teve um saldo negativo de 3.471 vagas entre janeiro de 2024 e setembro de 2025. Os setores analisados foram “Geração, transmissão e distribuição de energia elétrica” e “Fabricação de geradores, transformadores e motores elétricos”.
O gerente do Observatório, Guilherme Muchale, explica que, apesar da maior parte da geração de energia no Ceará, nesses últimos dois anos, ser proveniente de energia eólica e solar, as classificações citadas não são exclusivas para o setor de energias renováveis e incluem outros processos energéticos. Além disso, esses setores não representam toda a cadeia de energia renovável, já que, principalmente no caso da energia solar, diversas atividades econômicas não são formalizadas.
Nesse sentido, não é possível definir, com precisão, o cenário de empregos no setor de energia renovável no Ceará, mas, para Muchale, o resultado negativo foi impactado pelas demissões nas empresas da cadeia eólica.
“A redução de empregos no setor ocorre, sobretudo, pela ausência de leilões de geração, gerando redução na implantação de parques eólicos no Brasil”, indica.
ENTENDA A CRISE
Com alto índice de ventos e irradiação solar, o Ceará é um dos estados brasileiros mais afetados pelo cenário. Segundo o secretário executivo de Energia e Telecomunicações da Secretaria de Infraestrutura do Ceará (Seinfra), Dickson Araújo, 72% da geração de energia do Estado é renovável.
Na visão de Adão Linhares, “a crise no setor de energias renováveis no Ceará em 2025 está relacionada, principalmente, a cortes na geração de energia eólica e solar, conhecidos como “curtailments“, que têm causado prejuízos significativos devido à limitação na absorção da energia gerada pelo Sistema Interligado Nacional (SIN)”.
O fenômeno ocorre devido à rápida expansão da geração de energia no Estado, especialmente das fontes renováveis (solar e eólica), e à falta de infraestrutura adequada para o escoamento dessa produção.
Nesse cenário, é gerado um excedente de energia que não consegue ser devidamente transmitido do Ceará para onde há demanda e acaba sobrecarregando a capacidade de escoamento e gerenciamento do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
Como resultado desse excesso energético, muitas vezes é necessário reduzir a produção de hidrelétricas ou até desligar usinas renováveis.
De acordo com Nelson Falcão, o curtailment faz com que empresários desistam de investir em projetos do setor no Nordeste, já que a possível limitação na produção impacta negativamente o lucro do empreendimento.
“Nós estamos falando de um valor equivalente a 4, 5 bilhões de reais em energia que deixou de ser produzida, principalmente no Nordeste. Esse dinheiro que iria ser investido no Brasil saiu para outros projetos que estão hoje no Chile, na Argentina, na Colômbia, no Peru, em outros países da América do Sul”, frisa.
Para ele, a situação é delicada desde o ínicio do ano, com agravante a partir de junho e julho.
Já para o diretor técnico Regulatório da ABEEólica, Francisco Silva, esses cortes cresceram significativamente a partir de 2023, devido a um “crescimento desordenado da geração distribuída ao longo dos últimos anos, completamente fora de qualquer planejamento, muito calcado em grandes subsídios, e isso acabou fazendo com que nós tivéssemos uma redução na demanda por energia elétrica dentro do setor elétrico brasileiro”.
Segundo Adão, em 2025, cerca de 341 mil megawatts-hora (MWh) de energia eólica foram desperdiçados no Ceará, com prejuízos de R$ 20 milhões somente neste segmento.
Fonte: Diário do Nordeste.
