Apresentado nesta quarta-feira (5) durante o Fórum Big Data em Oncologia, no Rio de Janeiro, um levantamento do Observatório de Oncologia revelou uma mudança preocupante no perfil de mortalidade do país. O câncer já superou as doenças cardiovasculares como principal causa de morte em 670 municípios brasileiros, o equivalente a 12% das cidades. O número representa um aumento de 30% em oito anos em 2015, eram 516 municípios nessa situação.
Com base em 26 anos de registros do Ministério da Saúde, o estudo mostra que, desde 1998, as mortes por tumores cresceram 120%, mais que o dobro do aumento observado nas doenças cardíacas e cerebrovasculares (51%). Se a tendência continuar, os pesquisadores estimam que o câncer se tornará a principal causa de morte no Brasil até 2029.
“Estamos vivendo uma transição epidemiológica”, afirma o oncologista Abraão Dornellas, do Hospital Albert Einstein. “Com o envelhecimento populacional e o melhor controle de infartos e AVCs, o câncer ganha destaque nas estatísticas mas também revela desigualdades: onde há melhor estrutura e registro, o problema aparece com mais força.”
Sul do país lidera a “virada”
O avanço do câncer tem seu epicentro na Região Sul, que concentra 46% das cidades onde a doença já é a principal causa de morte. O Rio Grande do Sul lidera com 168 municípios cerca de um terço do total estadual. Lá, 22% das mortes já são provocadas por tumores, frente à média nacional de 17%.
Segundo a pesquisadora Nina Melo, coautora do estudo, o fenômeno resulta de uma combinação de fatores:
“O Sul tem maior expectativa de vida e melhor estrutura de diagnóstico, o que aumenta os registros. Mas também há fatores ambientais e genéticos, como o uso intensivo de agrotóxicos e a maior incidência de câncer de pele em populações caucasianas.”
Câncer avança no interior
Metade dos 670 municípios afetados tem menos de 25 mil habitantes, totalizando 9,2 milhões de brasileiros. Nessas regiões, o acesso ao diagnóstico e tratamento é limitado.
“O câncer deixou de ser um problema das capitais. Ele chegou ao interior”, alerta Nina. “Muitas mulheres não fazem mamografia porque precisam viajar para outra cidade e acabam diagnosticadas tardiamente.”
Dornellas complementa:
“Faltam serviços de patologia, cirurgia oncológica e radioterapia em boa parte do interior. Há verdadeiros ‘desertos assistenciais’, e o atraso no início do tratamento reduz as chances de cura.”
Envelhecimento e desigualdade
De acordo com o levantamento, 77% das mortes por câncer ocorrem em pessoas com mais de 60 anos, e 56% são entre homens. Os tipos mais letais continuam sendo pulmão, mama e próstata.
Para os especialistas, o envelhecimento da população explica parte do crescimento dos casos, mas as desigualdades regionais agravam o cenário. No Norte e Nordeste, por exemplo, o câncer de colo do útero prevenível com vacina e exames de rotina ainda é um dos que mais matam mulheres.
Lei dos 60 dias ainda não é cumprida
Mesmo com a Lei dos 60 Dias, que determina o início do tratamento em até dois meses após o diagnóstico, a demora ainda é a regra no SUS.
“O sistema tem condições de tratar muitos tipos de câncer, mas o gargalo está no tempo de espera”, explica Nina. “Quando o paciente finalmente começa o tratamento, o tumor já avançou.”
País despreparado para a virada
Os especialistas alertam que o Brasil não está preparado para lidar com o aumento acelerado de casos.
“Tratar câncer é caro e complexo. Sem investimento em prevenção, rastreamento e infraestrutura, o sistema não vai suportar a pressão”, diz Dornellas.
“É hora de agir”, reforça Nina. “A prevenção é a estratégia mais eficaz e sustentável. É melhor e mais barato evitar o câncer do que tratar suas consequências.”
