O ano novo ainda estava no horizonte quando seu Edilton e dona Francisca decidiram inaugurar um tempo diferente. Não precisaram esperar 2026 chegar. As luzes que anunciaram um recomeço se acenderam antes, dentro da igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no conjunto Jereissati, na Região Metropolitana de Fortaleza. Ali, no dia 28 de dezembro, eles realizaram um sonho guardado por meio século: o casamento religioso.
A manhã era de sol forte, calor típico de fim de ano e emoção compartilhada. O casamento coletivo reunia oito casais. Em salas separadas, os noivos aguardavam. Seu Edilton, 75 anos, tentava conter a ansiedade; dona Francisca, 78, dividia lágrimas e risadas com as outras noivas. “Quando começou a conversa, ninguém se segurou. Foi choro mesmo”, lembra ele.
Durante a entrada do cortejo, prometeu a si que não choraria. Conseguiu por alguns minutos. Depois, as lágrimas voltaram em ondas, acompanhando cada etapa da cerimônia. Não era pouco o que estava sendo celebrado: ali estavam condensados 50 anos de convivência, escolhas, desafios e permanência.
A história dos dois começou ainda na juventude, nos corredores do Colégio Marupiara, no bairro Jóquei Clube. Vieram de cidades diferentes — ele, de Santa Quitéria; ela, de Redenção —, mas foi Fortaleza quem cruzou seus caminhos. “A gente foi se conhecendo, e quando viu já estava namorando”, resume Edilton. O amor não teve grandes anúncios, apenas aconteceu, como ele gosta de dizer, “do jeito mais natural possível”.
Depois, vieram escolas diferentes, encontros mantidos, despedidas em cima da bicicleta, visitas de uma casa à outra. Dona Francisca recorda com leveza: “Ele só vivia me olhando. Aquilo despertou minha curiosidade”. O namoro resistiu às mudanças, aos bairros, ao tempo. Nos anos 1970, decidiram morar juntos e formar família. Em 1984, oficializaram a união no civil, em uma cerimônia simples e rápida, espremida entre o expediente de trabalho e a vida que já corria.
Nada disso, porém, diminuía o desejo que ficou guardado: casar na igreja. A fé sempre fez parte da rotina do casal, mas por décadas eles não comungaram, seguindo a orientação da Igreja para casais sem o sacramento do matrimônio. A celebração religiosa, portanto, tinha um significado que ia além da formalidade: era também reconciliação espiritual e pertencimento pleno.
Hoje, Edilton e Francisca somam três filhos e três netos — “netões”, como ele faz questão de corrigir. Falam de amor como quem aprendeu na prática. “É confiança, compreensão, viver um pelo outro e pela família”, define ela. Ele completa com poucas palavras: “paciência e respeito”.
O sonho agora é outro: viajar até o Santuário de Nossa Senhora Aparecida, desta vez de avião. Vivem da aposentadoria, mas não perdem a esperança. Afinal, se algo aprenderam em cinco décadas juntos é que sonhos não têm prazo de validade.
De mãos dadas, renovados sem deixar de ser quem sempre foram, seguem vivendo o que chamam de recomeço. Para eles, todo dia pode ser Réveillon.
Só quem atravessa o tempo junto sabe.
