A trend masculinista conhecida como “caso ela diga não” ganhou grande repercussão na imprensa francesa nos últimos dias, acendendo um alerta sobre conteúdos que incentivam a violência contra mulheres. Reportagens em jornais, emissoras de TV e rádio destacam a preocupação com a circulação desse tipo de material nas redes sociais e questionam a ausência de punição para seus criadores.
De acordo com o jornal francês Le Parisien, vídeos produzidos no Brasil muitos deles viralizados no TikTok mostram homens simulando ataques contra bonecos de treino, com cenas de espancamento e esfaqueamento. O conteúdo é descrito como cada vez mais explícito, acessível e naturalizado.
A publicação também relembra o caso da jovem Alana Anisio Rosa, de 20 anos, vítima de uma tentativa de feminicídio em São Gonçalo (RJ), após rejeitar um homem que a abordava com presentes. Ela sofreu dezenas de facadas e agressões, sobreviveu, mas precisou ser submetida a diversas cirurgias e ficou em coma induzido. O agressor, Luiz Felipe Sampaio, foi preso em flagrante. Segundo familiares, ele consumia conteúdos semelhantes aos vídeos da trend.
Outro veículo francês, o 20 Minutes, aponta que esses vídeos acumulam milhares de visualizações e podem contribuir para o aumento da violência de gênero no Brasil, que registrou 1.586 casos de feminicídio no último ano.
Já a emissora France 24 relembra episódios recentes no país, como um caso de estupro coletivo envolvendo uma adolescente no Rio de Janeiro, no qual um dos envolvidos se entregou usando uma camisa com a frase “Regret Nothing” (“não se arrepender de nada”), associada a discursos masculinistas. Também cita o assassinato da policial Gisele Alves Santana, cujo marido, Geraldo Leite Rosa Neto, é acusado do crime e teria expressado ideias de dominação em mensagens privadas.
Na rádio France Inter, a jornalista Mathilde Serrell comparou a situação a narrativas fictícias, afirmando que, no Brasil, “a ficção se tornou realidade” ao mencionar o caso de Alana. Ela descreve os vídeos da trend como conteúdos repetitivos que mostram homens agredindo manequins que simbolizam mulheres que rejeitam suas investidas.
Apesar da gravidade, também cresce a reação contrária. A plataforma Brut destaca iniciativas nas redes sociais que incentivam o respeito ao “não”, com usuários promovendo mensagens de conscientização e criticando a impunidade. Nos comentários, internautas cobram ações mais rápidas das autoridades e levantam debates sobre a responsabilização dos envolvidos.
O tema também se conecta ao debate no Brasil sobre o chamado “PL da Misoginia”, que tramita na Câmara dos Deputados e enfrenta resistência política. A discussão ganha força diante da repercussão internacional e da pressão por medidas mais efetivas contra conteúdos que estimulam a violência de gênero.
Fonte: G1
