Segundo a pesquisa, 29,6% das famílias tinham dívidas em atraso em março e 12,3% não tinham condição de pagar as contas atrasadas naquele mês, com o pagamento de dívidas comprometendo quase um terço da renda familiar (29,6%).
Cartões de crédito (84,9%), crediários do varejo (16%) e empréstimos pessoais (12,6%) representam hoje os principais tipos de dívidas das famílias, segundo o levantamento.
Outra pesquisa, realizada pela Serasa, aponta que 81,7 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em fevereiro, ou 49,9% da população adulta, com valor médio da dívida por pessoa de R$ 6.598,13.
Segundo especialistas, três fatores principais explicam o alto endividamento: a ampliação da oferta de crédito com o aumento do número de pessoas com contas em banco desde a pandemia, as altas taxas de juros e, mais recentemente, a disseminação no país das plataformas de apostas virtuais, conhecidas como bets.
O endividamento elevado virou uma dor de cabeça para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no ano eleitoral.
A avaliação do governo é de que o peso das dívidas mascara a alta da renda e o desemprego baixo, contribuindo para a avaliação negativa dos brasileiros da economia, mesmo com a inflação controlada e o Produto Interno Bruto (PIB) crescendo.
Em resposta ao problema, o governo planeja lançar uma segunda versão do programa de renegociação de dívidas Desenrola. Uma das medidas em estudo é a liberação de valores retidos no Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitação de dívidas, em um montante que pode chegar a R$ 7 bilhões, segundo informações preliminares.
O governo também avalia mecanismos para conter o uso excessivo de plataformas de apostas para tentar reduzir o endividamento das famílias. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, indicou que o novo programa deve contemplar tanto pessoas físicas quanto empresas.
‘Recebo 20 ligações de cobrança por dia’
“Que bom que você avisou que ia ligar, porque senão o DDD 11 eu não atenderia normalmente”, diz a catarinense Bárbara Helena da Silva, de 31 anos, ao falar por telefone com a reportagem da BBC News Brasil.
“Eu recebo por volta de 20 ligações de cobrança por dia. Descobri que estão ligando até para minha cunhada para cobrar dívida minha. Fiquei triste, porque esse é um problema meu, não queria que respingasse em outras pessoas.
“As dívidas de Bárbara são hoje as mais comuns entre os brasileiros: foram três cartões de crédito que levaram a moradora de Florianópolis a se tornar inadimplente.
Ela estima suas dívidas em atraso hoje em mais de R$ 20 mil — originalmente, eram cerca de R$ 10 mil, que dobraram em seis meses, diz ela, por causa dos altos juros dos cartões.Segundo dados do Banco Central, o juro médio cobrado pelos bancos no rotativo do cartão de crédito era de 435,9% ao ano em fevereiro — o crédito rotativo é acionado quando a pessoa não paga o valor total da fatura até o vencimento.
Mas, desde 2024, está em vigor uma norma que estabelece um teto para o aumento de uma dívida no cartão de crédito até o dobro do valor original.
Segundo uma pesquisa Datafolha divulgada em 18 de abril, 27% dos entrevistados disseram usar o crédito rotativo com diferentes graus de frequência.
Esta mesma pesquisa mostrou que 67% dos brasileiros dizem ter dívidas financeiras e que 21% têm parcelas em atraso.
Bárbara conta que, como psicóloga autônoma, sente em primeira mão quando a renda das pessoas está apertada, porque, quando elas perdem poder de compra, o primeiro gasto que cortam é com a saúde mental.
“Fui perdendo clientes, e minha renda foi diminuindo bastante. Aí, tive que optar por pagar o aluguel e as contas de casa ou pagar o cartão de crédito, que tinha várias compras parceladas. Foi meio que inevitável”, diz a psicóloga.
Entre as compras parceladas nos seus três cartões — dois de instituições financeiras digitais e um de banco tradicional —, ela cita o computador que usa para trabalhar, uma cadeira de escritório e um aparelho de ar-condicionado.
“São coisas pequenas, mas que a gente não consegue comprar à vista. A gente vai parcelando, vai juntando parcela com parcela, e vira uma grande bola de neve.”
‘O jogo praticamente destruiu minha vida’
Foi o que aconteceu com Nicole, de 21 anos, moradora de um município de pouco mais de 8 mil habitantes no interior da Bahia. A jovem dona de casa afirma que teve seu casamento e sua saúde mental destruídos pelo vício em apostas.
Atualmente, não sabe dizer quanto tem em dívidas, mas estima que sejam mais de R$ 10 mil, em empréstimos bancários que tomou para continuar apostando em bets. Ela preferiu ter seu nome verdadeiro preservado para dar seu relato à BBC News Brasil.
“Tudo começou em 2023. Foi assim: eu estava assistindo o vídeo de uma influenciadora muito famosa nos stories [do Instagram], aí me deparei com ela postando o link de um jogo e acabei clicando”, lembra.
“Joguei R$ 10 na época e ganhei R$ 100, aí fiquei eufórica. Daí por diante, o vício só foi crescendo, cada dia mais. Eu não conseguia mais sair.”
“Meu nome hoje em dia é sujo em cinco bancos por conta das casas de apostas. Então, trouxe para mim muitos problemas, tanto financeiros, como físicos e psicológicos. Esse jogo praticamente destruiu minha vida, meu casamento desabou por conta do vício.”
Desempregada e com o Bolsa Família como única fonte de renda, ela diz que não tem perspectiva de pagar a dívida.
“Como não trabalho e, na Bahia, atualmente, é difícil arrumar emprego, não estou pagando, porque são muitas dívidas, não tenho como pagar.”
Nicole afirma que ainda não tem candidato a presidente para as eleições de outubro, mas se diz pessimista com os rumos do país.
“O Brasil só vem decepcionando a gente, por vários fatores, como as casas de apostas. Isso já era para ter sido resolvido pelo governo, porque ele está vendo que está destruindo milhares e milhares de pessoas”, diz ela.
Uma pesquisa Quaest divulgada em 17 de abril mostrou que 29% dos brasileiros dizem ter o costume de fazer apostas em bets.
“Já era para o governo ter bloqueado as casas de apostas, mas, infelizmente, a gente vive em um país que é basicamente sem lei.”
