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Como o Ceará se consolidou como o ‘rei dos calçados’ no Brasil?

Estado lidera produção e volume de exportações no país com mais de 206 milhões de pares, mas enfrenta o desafio de aumentar o faturamento e vencer gargalos logísticos.
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O Ceará é, atualmente, o maior produtor e exportador de calçados do Brasil. Em 2025, o Estado liderou os dois índices, com 24,4% da produção nacional, o equivalente a 206,8 milhões de pares. Essa performance superou a do Rio Grande do Sul, com 22,8%, e a de Minas Gerais, com 16,8%.

Além disso, também foi melhor nas exportações em volume, representando 31,4% dos pares enviados pelo Brasil. Os dados são da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados).

Ao longo do ano passado, o Ceará enviou 32,6 milhões de pares ao mercado externo, o que representa 31,4% do total exportado pelo País. Com isso, assumiu o posto de principal exportador em volume, posição que pertencia ao Rio Grande do Sul no ano anterior.

A liderança muda quando o critério é o faturamento: os embarques cearenses somaram US$ 189,4 milhões, garantindo a segunda posição no ranking nacional de faturamento com exportações, com uma fatia de 19,8% do total do país.

Já o estado gaúcho lidera esse quesito, registrando um faturamento de US$ 457,6 milhões, totalizando 47,8% do valor gerado pelas exportações brasileiras do setor.

Ranking de Produção por Estado

(em milhões de pares – 2025)

  1. Ceará: 206,8 milhões (24,4% de participação nacional)
  2. Rio Grande do Sul: 193,4 milhões (22,8%)
  3. Minas Gerais: 138,1 milhões (16,3%)
  4. Paraíba: 119,4 milhões
  5. Bahia: 51,9 milhões

Ranking de Exportação por Estado (2025)

As exportações podem ser medidas tanto por volume (quantidade de pares) quanto por valor (faturamento em dólares). O Ceará lidera em volume, enquanto o Rio Grande do Sul lidera em faturamento.

Por Volume

(em milhões de pares)

  1. Ceará: 32,6 milhões (31,4% do total exportado pelo Brasil)
  2. Rio Grande do Sul: 32,0 milhões (30,7%)
  3. Paraíba: 15,9 milhões (15,3%)
  4. Minas Gerais: 7,7 milhões (7,4%)
  5. São Paulo: 6,7 milhões (6,5%)

Por Valor

(em milhões de US$)

  1. Rio Grande do Sul: US$ 457,6 milhões (47,8% do faturamento nacional)
  2. Ceará: US$ 189,4 milhões (19,8%)
  3. São Paulo: US$ 101,0 milhões (10,5%)
  4. Bahia: US$ 72,3 milhões (7,5%)
  5. Paraíba: US$ 54,7 milhões (5,7%)

A força dos polos: do interior para o mundo

Ainda segundo o relatório da Abicalçados, a produção cearense está altamente concentrada em quatro polos principais que, juntos, respondem por 96,4% da fabricação estadual.

O maior destaque é o polo de Sobral, que se consolidou como o maior centro produtor de calçados do Brasil, fabricando sozinho 123,8 milhões de pares em 2025.

A atividade é o motor da região, sendo responsável por 75% dos empregos industriais locais e exportando majoritariamente calçados de material sintético para destinos como a Colômbia.

Além de Sobral, outros municípios e regiões desempenham papéis estratégicos:

  1. Horizonte: destaca-se como o município que mais gera empregos no setor calçadista em todo o Brasil, com 14,4 mil postos de trabalho.
  2. Fortaleza: produziu 30,6 milhões de pares em 2025, com foco em calçados de couro e têxteis, tendo a Argentina como principal destino.
  3. Quixadá: responsável por 11,5% da produção do estado, com exportações voltadas principalmente para o mercado norte-americano.
  4. Juazeiro do Norte: concentra o maior número de empresas ativas (115), sendo um polo marcado pela presença de microempresas.

Quando e como o Ceará ganhou protagonismo? 

A consolidação do Ceará como o maior produtor de calçados do Brasil é fruto de uma construção histórica que se iniciou muito antes da industrialização moderna.

Segundo Valder Jadson Alves, professor de Economia da Universidade Federal do Ceará (UFC), campus Sobral, o setor tem raízes no século XVIII, quando o estado se desenvolveu a partir da pecuária e do aproveitamento do couro.

“Toda uma manufatura de couro é criada nesse período e se desenvolveu de forma artesanal até os dias atuais”, explica o professor, ressaltando que as principais cidades cearenses nasceram dessa vocação manufatureira.

A transição da produção artesanal para a escala industrial começou a ganhar força na década de 1980, com políticas públicas voltadas à criação de cooperativas calçadistas para organizar a mão de obra local.

Contudo, o professor afirma que o “salto definitivo” ocorreu por meio da atração de grandes complexos industriais de outros estados, especialmente com capital oriundo do Rio Grande do Sul.

“Atraídas por incentivos fiscais e logísticos agressivos durante o período da guerra fiscal, gigantes como a Grendene transformaram o cenário produtivo do estado”, observa.

A instalação da empresa em Sobral, em 1993, é citada como o marco da mudança de patamar tecnológico e produtivo. “Em meados dos anos 2000, a produção já superava 100 milhões de pares anuais, chegando a escalas pouco comparáveis em termos nacionais”, destaca Alves.

“O setor calçadista, nesses 20 anos, vem promovendo o desenvolvimento econômico e social de regiões que anteriormente apresentavam menores índices de desenvolvimento humano, levando emprego e renda para milhares de pessoas.”

Na realidade atual, a indústria calçadista responde sozinha por 10% do PIB industrial do Ceará, conforme o professor da UFC, e são 16 mil empregos diretos somente em Sobral e quase 70 mil em todo o Estado. 

Já o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, também cita uma migração de plantas e unidades produtivas de outras regiões do País para o Nordeste, impulsionada por questões fiscais e pela maior oferta de mão de obra.

Assim, segundo ele, o Ceará passou a ser o maior produtor de calçados do Brasil em 2006, posto que mantém desde então.

Quais são os desafios no setor?

Porém, reforça Alves, embora a produção esteja se diversificando, o Estado ainda precisa superar a dependência de centros de pesquisa externos para a inovação tecnológica.

 “Mesmo que tenhamos aqui trabalhadores que historicamente desenvolveram habilidades no setor calçadista, não há formação específica para a inovação tecnológica, sendo por esse motivo que os principais centros de pesquisa ficam fora do Estado. Tudo isso contribui para a produção em massa de produtos de menor valor agregado, embora essa realidade venha se modificando com uma maior diversificação da produção nos últimos anos”, explica Alves.

De acordo com o economista Eldair Melo, a indústria calçadista vive um momento de “intensa competição por margens de lucro, produtividade, participação no mercado externo e posicionamento de marca”.

Ele ressalta que o Ceará lidera em pares devido a uma base industrial altamente eficiente em larga escala, focada em produtos populares e sintéticos.

“O desafio a partir de 2026 não reside apenas em aumentar o volume de produção, mas, sobretudo, em transformar esse volume em valor, margem de lucro, fortalecimento de marca, adoção de tecnologia e geração de renda industrial mais qualificada”, observa Melo.

O economista Paulo Henrique Arruda corrobora essa visão, apontando que produzir muito não significa necessariamente faturar mais. Ele destaca que, embora o polo de Sobral sozinho responda por quase 60% da produção estadual, o Ceará ainda está concentrado em produtos de menor valor unitário.

“O Ceará ganha no volume, mas ainda precisa avançar no preço médio, na marca, na diferenciação e na agregação de valor”.Paulo Henrique Arruda

Economista

Gargalos logísticos e a nova indústria

A infraestrutura é um ponto crítico de convergência entre especialistas. Se por um lado o Porto do Pecém é visto como uma “vantagem estratégica” para a inserção internacional, por outro os custos logísticos internos e as condições das rodovias que acessam os polos industriais permanecem como gargalos.

O economista Eldair Melo enfatiza a importância da eficiência em toda a cadeia. “Em um mercado com margens apertadas, uma diferença de 3% a 5% no custo final pode determinar a competitividade do calçado cearense em relação aos produtos importados”.

Além da logística, a requalificação da mão de obra é vista como imperativa para enfrentar a concorrência das plataformas globais de e-commerce e dos calçados asiáticos. Paulo Henrique argumenta que não basta ter mão de obra abundante; a modernização exige técnicos em automação e especialistas em gestão digital.

Jadson Alves complementa que o estado deve investir na expansão do ensino superior tecnológico, especialmente na região norte, para fomentar a “expansão inovativa técnica”.

Já para Haroldo Ferreira, os desafios da indústria cearense “são, basicamente, os mesmos enfrentados pelo Brasil”. Ele cita como um dos principais problemas “as importações predatórias, especialmente da Ásia”.

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