Carlo Ancelotti parece ter encontrado a fórmula perfeita para agradar a todos: enche Endrick de elogios, mas deixa o garoto no banco. É o famoso “você é um fenômeno… só não é bom o suficiente para começar jogando”.
O discurso convence na coletiva. No campo, nem tanto.
Se Endrick é um “talento extraordinário”, como definiu o próprio treinador, por que a insistência em tratá-lo como uma promessa distante? O futebol não espera. A Seleção Brasileira também não deveria.
Existe uma linha tênue entre proteger um jovem e desperdiçar seu talento. E Ancelotti corre o risco de cruzá-la. Afinal, quantas oportunidades um jogador precisa perder até que chegue o tal “momento certo”?
A história da Seleção é feita justamente por técnicos que tiveram coragem de apostar nos diferentes. Pelé tinha 17 anos quando virou titular em uma Copa. Ronaldo também foi lançado cedo na elite do futebol. Neymar assumiu protagonismo ainda muito jovem. Nenhum deles esperou que o tempo decidisse por eles.
É curioso que o treinador diga que Endrick é diferente de todos os outros atacantes e, justamente por isso, prefira deixá-lo assistindo ao jogo do banco. Se ele realmente oferece características únicas, faz ainda menos sentido abrir mão delas.
A impressão é que a Seleção vive um paradoxo: fala em renovação, mas tem medo de renovar; exalta os jovens, mas continua recorrendo às velhas soluções. E o resultado é um time que, muitas vezes, parece burocrático, previsível e sem o brilho que sempre marcou o futebol brasileiro.
Ancelotti não será julgado pelas entrevistas, nem pela elegância de suas respostas. Será julgado pelas escolhas. E, se Endrick continuar sendo apenas o “craque do futuro”, enquanto o presente passa diante dos seus olhos, a pergunta inevitavelmente virá: o técnico demorou demais para confiar em quem poderia fazer a diferença?
Porque, no futebol, talento sem oportunidade vira apenas um excelente discurso de coletiva.

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