A decisão do Sistema Único de Saúde (SUS) de ampliar para até 100 mil atendimentos mensais o serviço de teleatendimento para pessoas com problemas relacionados às apostas online revela uma realidade preocupante: o país enfrenta uma verdadeira epidemia silenciosa provocada pela explosão das chamadas “bets”.
Se, por um lado, é louvável que o governo fortaleça a rede de assistência e reconheça o jogo compulsivo como um problema de saúde pública, por outro, a necessidade de multiplicar em mais de 160 vezes a capacidade de atendimento expõe o tamanho do desafio. Em poucos meses, a procura pelo serviço cresceu de forma vertiginosa, mostrando que milhares de brasileiros perderam o controle diante de plataformas que prometem dinheiro fácil, mas frequentemente entregam dívidas, sofrimento emocional e famílias desestruturadas.
O dado de que mais de um milhão de pessoas solicitaram a autoexclusão de sites de apostas é alarmante. Mais grave ainda é saber que boa parte desses usuários reconheceu ter perdido o controle sobre o próprio comportamento. Isso deixa claro que o problema deixou de ser apenas individual e passou a exigir respostas coletivas, envolvendo saúde, educação, regulação e conscientização.
As apostas online foram popularizadas por campanhas publicitárias agressivas, patrocínios esportivos e uma forte presença nas redes sociais. Em muitos casos, venderam a ilusão de que qualquer pessoa poderia enriquecer com poucos cliques. O resultado tem sido uma geração de brasileiros que troca planejamento financeiro por promessas de ganhos imediatos, comprometendo salários, economias e até a estabilidade das famílias.
O atendimento psicológico e especializado oferecido pelo SUS é indispensável e pode transformar vidas. No entanto, ele representa a resposta ao problema já instalado. O grande desafio está na prevenção. É preciso discutir limites para a publicidade das apostas, ampliar campanhas educativas, proteger adolescentes da exposição precoce e fortalecer mecanismos de controle para impedir que pessoas vulneráveis sejam constantemente estimuladas a jogar.
A ampliação do serviço é uma medida acertada e demonstra sensibilidade diante de um problema crescente. Mas ela também serve como um alerta: nenhum sistema de saúde conseguirá vencer sozinho uma crise alimentada por interesses econômicos bilionários e pela banalização do jogo como forma de entretenimento ou renda.
Cuidar de quem já sofre é uma obrigação do Estado. Impedir que milhões de outros brasileiros trilhem o mesmo caminho deve ser a prioridade.
