O desperdício de alimentos no varejo supermercadista do Ceará atingiu, em média, 2,65% do faturamento bruto das empresas em 2025, segundo dados divulgados pela Associação Cearense de Supermercados (Acesu). O índice foi apresentado na 4ª edição da Pesquisa de Prevenção de Perdas da entidade, realizada em 2026, e supera em 45,6% a média nacional, estimada em 1,82%.
De acordo com a Acesu, o resultado acende um alerta para a rentabilidade das empresas do setor, que tradicionalmente operam com margens líquidas reduzidas. As perdas estão concentradas principalmente nos produtos perecíveis, cuja deterioração ocorre de forma mais acelerada.
O vencimento de mercadorias foi apontado por 97,1% das empresas entrevistadas como a principal causa de perdas conhecidas. Em seguida aparecem as avarias, citadas por 82,9% dos participantes, a maturação avançada dos produtos, com 51,4%, e os itens considerados impróprios para consumo, com 37,1%.
O secretário executivo da Acesu, Antônio Sales, destaca que o impacto financeiro vai além do valor investido na compra das mercadorias descartadas. Segundo ele, o desperdício compromete diretamente a receita das empresas e representa uma ineficiência operacional que afeta toda a cadeia produtiva.
O economista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Roberto Kanter, ressalta que as perdas devem ser analisadas de forma diferente dos custos operacionais. Conforme explica, quando um alimento é descartado, todo o valor agregado ao longo do processo de produção, transporte, armazenamento e comercialização é eliminado.
Entre os fatores que contribuem para o elevado índice de desperdício no Ceará estão as altas temperaturas e os desafios logísticos. O clima exige controle rigoroso da cadeia de frio, especialmente para frutas, verduras, legumes, carnes e laticínios. Falhas na refrigeração ou atrasos no transporte podem acelerar a deterioração dos produtos e reduzir sua vida útil.
Durante o 6º Fórum de Prevenção de Perdas da Acesu, realizado neste mês, foi apresentado um estudo da Universidade Federal do Ceará (UFC) que mapeou 33 práticas de economia circular voltadas à redução do desperdício no varejo. A pesquisa busca auxiliar supermercados na adoção de estratégias mais estruturadas para prevenção de perdas. Para o presidente do Comitê de Prevenção de Perdas da Acesu, Paulo César Sousa dos Santos, a gestão do desperdício precisa ser incorporada ao planejamento das empresas. Segundo ele, a prevenção deve acompanhar indicadores, processos e pessoas de forma contínua.
Grandes redes que atuam no Ceará também vêm ampliando iniciativas para reduzir o descarte. Uma das estratégias é a doação de alimentos ainda próprios para consumo a instituições sociais e bancos de alimentos, prática adotada por empresas como o Assaí Atacadista por meio do programa Destino Certo.
Dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) mostram que, embora parte das empresas tenha conseguido aumentar o faturamento reduzindo perdas, outras registraram crescimento do desperdício na mesma proporção da expansão das vendas, reforçando a necessidade de maior controle e eficiência operacional no setor.
Fonte: Diário do Nordeste
