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El Niño: quando o calor deixa de ser apenas um fenômeno climático

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O alerta sobre os possíveis efeitos do El Niño até o início de 2027 deveria ser tratado como mais do que uma previsão meteorológica. A estimativa de cerca de 450 mil mortes em excesso no mundo, caso o cenário projetado pelos pesquisadores se confirme, revela a dimensão humana de um fenômeno que costuma ser apresentado apenas em mapas, gráficos e boletins climáticos. No Brasil, a projeção de aproximadamente 13,3 mil mortes adicionais reforça que as consequências podem alcançar diretamente a saúde e a vida da população.

O levantamento do Laboratório de Impactos do Clima da Universidade de Chicago chama atenção também pela distribuição desigual dos impactos. Países como Nigéria, Indonésia e Sudão aparecem entre os que podem registrar números expressivos de mortes adicionais. Essa realidade demonstra que eventos climáticos extremos não afetam todas as sociedades da mesma maneira. Populações mais vulneráveis, com menor acesso a serviços de saúde, saneamento, alimentação adequada e infraestrutura, tendem a enfrentar maiores dificuldades para se proteger.

Outro dado preocupante é a possibilidade de aumento de até 44% no número de dias de calor extremo. O problema, portanto, não se resume a temperaturas desconfortáveis. O calor intenso pode provocar estresse térmico e agravar doenças preexistentes, além de aumentar a pressão sobre os sistemas de saúde e sobre serviços essenciais.

Os efeitos também podem se espalhar para além das cidades. Alterações nos padrões de chuva e temperatura podem comprometer a produção de alimentos, favorecer inundações e criar condições para a disseminação de doenças. A Organização Mundial da Saúde alerta para riscos que incluem doenças relacionadas ao calor, problemas respiratórios, desnutrição, cólera e enfermidades transmitidas por mosquitos, como dengue e malária.

No Brasil, esse cenário merece atenção especial. Um país de dimensões continentais, com diferentes realidades climáticas e sociais, não pode tratar uma ameaça dessa magnitude como um problema exclusivamente meteorológico. É necessário considerar seus efeitos sobre hospitais, abastecimento de água, agricultura, segurança alimentar, infraestrutura urbana e prevenção de doenças.

A previsão de que o El Niño atinja seu pico no fim de 2026 e possa ter seus efeitos intensificados durante o verão no Hemisfério Sul coloca governos e instituições diante de uma questão essencial: quanto estamos preparados para enfrentar períodos prolongados de calor extremo e alterações nos regimes de chuva?

Mais do que tentar prever o número exato de mortes, o alerta dos cientistas deve servir para antecipar respostas. Sistemas de alerta, atendimento médico, campanhas de prevenção, monitoramento epidemiológico, proteção de trabalhadores expostos ao calor e políticas de segurança alimentar podem fazer diferença quando as temperaturas atingirem níveis perigosos.

O El Niño é um fenômeno natural. Mas seus impactos sobre a sociedade não precisam ser inevitáveis. A capacidade de preparação, prevenção e resposta pode determinar a dimensão da tragédia.

O alerta, portanto, não deve ser recebido com alarmismo, mas também não pode ser ignorado. Se as projeções para 2026 e 2027 apontam para um período de riscos elevados, este é justamente o momento de transformar ciência em planejamento. O calor extremo pode ser um fenômeno climático; evitar que ele se transforme em uma crise de saúde pública é uma responsabilidade humana.

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