A 2ª Vara do Júri de Fortaleza decidiu que José Tomaz Neto e Wesley dos Santos de Lima, apontados pela Justiça como integrantes da extinta facção Guardiões do Estado (GDE), serão julgados pelo Tribunal do Júri pela morte de Hermeson Henrique Galeno da Silva. A vítima foi assassinada a tiros após, segundo a investigação, se recusar a cumprir uma ordem da organização criminosa.
O crime aconteceu em 30 de abril de 2024, na Rua Umarizeiras, no bairro Presidente Vargas, em Fortaleza. Conforme a denúncia do Ministério Público do Ceará (MPCE), Hermeson teria recebido a ordem para matar um homem identificado como Elias, mas se recusou porque ele seria seu amigo e estaria com a esposa grávida.
Segundo a investigação, Elias teria sido condenado pelo chamado “tribunal do crime” após matar uma pessoa e ferir outras sem autorização da facção. A ordem para matá-lo teria partido de lideranças do grupo.
Ainda de acordo com a denúncia, Hermeson estava em uma mercearia quando foi surpreendido pelos acusados em uma motocicleta. Wesley estaria pilotando a moto, enquanto Tomaz, na garupa, teria efetuado os disparos. A vítima tentou fugir, mas foi perseguida e morreu na porta de uma residência.
O laudo cadavérico apontou ferimentos na orelha, costas, braço esquerdo e peito, além de lesões na cabeça e no tórax. A Justiça considerou que o crime teria sido cometido por motivo torpe, relacionado à suposta “pena de morte” imposta à vítima por insubordinação.
A sentença de pronúncia, publicada no último dia 17, ressalta que a decisão não significa que os réus sejam considerados culpados, mas que existem elementos suficientes no processo para que sejam submetidos ao julgamento popular. A data do júri ainda não foi definida. Caberá ao Conselho de Sentença decidir pela condenação ou absolvição.
A prisão preventiva dos dois também foi mantida. Segundo a 2ª Vara do Júri, não houve fato novo capaz de modificar a decisão anterior e permanece o entendimento de que há risco concreto relacionado às condutas atribuídas aos acusados.
Defesa contesta acusações
A defesa de Wesley afirmou no processo que as acusações seriam baseadas em “ilações desprovidas de suporte probatório” e sustentou não haver elementos que comprovem a participação dele no homicídio. O advogado também questionou a ausência de testemunhas que tenham identificado Wesley como o homem que estava na garupa da motocicleta, afirmando que alguns relatos seriam baseados em informações de terceiros e rumores.
A Defensoria Pública, responsável pela defesa de José Tomaz, alegou que “os fatos não aconteceram de acordo com os narrados na denúncia”.
A reportagem não conseguiu localizar as defesas para manifestações adicionais. O espaço permanece aberto.
Motocicleta teria sido roubada horas antes
Documentos do processo indicam ainda que a motocicleta usada no homicídio teria sido roubada pelos acusados no mesmo dia do crime.
O proprietário registrou o roubo de uma Honda CG 125 FAN preta por volta das 20h40, na Delegacia do 30º Distrito Policial. O horário estimado da morte de Hermeson era por volta das 20h30.
Segundo o registro policial, o assalto ocorreu aproximadamente às 18h, no bairro Maraponga, cerca de duas horas antes do homicídio. A motocicleta teria sido posteriormente utilizada pelos criminosos na execução.
Após os disparos, a dupla abandonou o veículo e fugiu a pé. Uma testemunha relatou que a motocicleta aparentemente foi deixada no local após apresentar um defeito.
Outros investigados
Um dos nomes citados na investigação, Antônio Elden da Silva Lucas, teve a punibilidade extinta após ser assassinado em agosto de 2025, na saída de uma clínica no bairro Sapiranga.
Já Jefferson Diego Holanda Barbosa, apontado como uma das lideranças da facção e supostamente ligado à vítima dentro da organização, teve o processo suspenso por não ter sido localizado. Há, contudo, uma audiência de produção antecipada de prova marcada no processo.
Conflitos anteriores
Depoimentos de testemunhas, mantidos sob sigilo durante a investigação, também apontaram que Hermeson e os acusados já se conheciam e que havia conflitos entre integrantes do grupo.
Uma testemunha relatou desentendimentos entre Hermeson e uma terceira pessoa ligada a Diego. Outra afirmou que Hermeson e Tomaz eram amigos, mas classificou o acusado como uma pessoa “não confiável”.
Os depoimentos também mencionaram ameaças e discussões frequentes entre Hermeson e Tomaz. Segundo duas testemunhas, Tomaz estaria enviando mensagens para a esposa da vítima e teria discutido com Hermeson por causa disso. Os relatos ainda apontaram que Wesley estaria com Tomaz na motocicleta no momento do crime.
Fonte: Diário do Nordeste
