A paisagem religiosa do Brasil está passando por uma transformação significativa, como mostram os dados do Censo 2022 divulgados pelo IBGE. A população evangélica, que já representa 26,9% dos brasileiros com 10 anos ou mais, segue em expansão, mesmo com ritmo de crescimento mais lento. Em 2010, esse grupo somava 21,6% da população, e em 2000, apenas 15,1%. Ainda assim, os evangélicos continuam sendo a corrente religiosa que mais cresce no país nas últimas décadas.
Esse crescimento tem sido mais expressivo entre os mais jovens. Quase um terço das crianças de 10 a 14 anos se declararam evangélicas, o que indica uma presença crescente dessa identidade religiosa nas novas gerações. Em regiões como o Norte e o Centro-Oeste, os evangélicos já são mais de 30% da população. No Acre, quase metade dos moradores se identificam com essa fé.
Em paralelo, o catolicismo perdeu espaço. Ainda é a religião com maior número de adeptos, mas a participação caiu de 65% em 2010 para 56,7% em 2022. A tendência de queda é contínua e histórica — em 1872, 99,7% da população se declarava católica. Em 2022, os católicos eram maioria em 4.881 municípios, com destaque para estados como Piauí e regiões do Sul marcadas pela imigração europeia.
Outra mudança relevante observada pelo IBGE foi o aumento no número de pessoas sem religião, que passaram de 7,9% em 2010 para 9,3% em 2022. Esse grupo inclui ateus, agnósticos e pessoas que simplesmente não se identificam com nenhuma crença formal. Homens são maioria entre os sem religião, e estados como Roraima e Rio de Janeiro têm os maiores percentuais desse grupo.
O Censo também revelou o crescimento das religiões de matriz africana, que triplicaram sua presença em 12 anos, indo de 0,3% para 1%. Pesquisadores do IBGE associam esse aumento ao combate à intolerância religiosa e à maior disposição dos fiéis em se identificarem com suas crenças originais, como umbanda e candomblé. A maior presença desses praticantes foi registrada no Rio Grande do Sul.
As chamadas “outras religiosidades”, como judaísmo, islamismo, budismo e tradições esotéricas, também aumentaram, passando de 2,7% para 4%. Já os espíritas, historicamente com maior nível de escolaridade entre os grupos religiosos, registraram leve queda, de 2,1% para 1,8%.
As diferenças entre os grupos religiosos também aparecem em indicadores sociais. Entre os espíritas, quase metade tem ensino superior completo. No outro extremo, 53,6% dos que seguem tradições indígenas têm apenas ensino fundamental incompleto ou menos. Os evangélicos apresentaram taxa de analfabetismo de 5,4%, enquanto entre os católicos esse índice foi de 7,8%.
A diversidade religiosa brasileira se reflete ainda nos dados por cor ou raça. O catolicismo é majoritário entre todos os grupos, mas com diferentes pesos: 60,2% entre brancos, 49% entre pretos e 55,6% entre pardos. Os evangélicos têm maior presença entre os indígenas (32,2%), superando inclusive os católicos nesse grupo.
O novo retrato religioso do Brasil desenhado pelo Censo mostra um país cada vez mais plural, onde mudanças geracionais, sociais e culturais remodelam a forma como a fé é vivida e expressa. A hegemonia católica cede espaço a um mosaico de crenças que tende a se tornar ainda mais diverso nas próximas décadas.
