Enquanto o Brasil se prepara para sediar a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas em novembro de 2025, em Belém, os sinais do impacto do aquecimento global sobre os oceanos já são evidentes em diversas partes do país. O aumento do nível do mar, tema que deve ganhar destaque na COP30, deixou de ser uma preocupação futura e passou a fazer parte do cotidiano de cidades litorâneas como Recife, Florianópolis e Porto Alegre.
O fenômeno está diretamente ligado a dois processos principais: a expansão térmica da água, causada pelo aumento da temperatura dos oceanos, e o derretimento de geleiras continentais. Ambos os fatores contribuem para o avanço das águas sobre o continente, como explica o professor Eduardo Siegle, do Instituto Oceanográfico da USP. Segundo ele, os registros atuais mostram uma elevação superior a 20 centímetros no nível do mar ao longo do último século. As projeções para 2050 indicam uma alta adicional entre 15 e 35 centímetros, podendo ser até 30% maior em locais onde há afundamento natural do solo.
A elevação do mar traz consigo uma série de consequências. Em Recife, a maré alta já provoca inundações em bairros como Brasília Teimosa, Pina e Boa Viagem. A cidade, construída em área de baixa altitude, é uma das mais vulneráveis às mudanças climáticas. No Sul, eventos extremos se intensificam. Em maio de 2024, Porto Alegre sofreu com inundações agravadas por chuvas intensas, ventos litorâneos e marés meteorológicas. Santa Catarina, por sua vez, convive com ressacas e ciclones extratropicais que empurram as águas para dentro das cidades e desgastam a linha costeira.
A intrusão de água salgada ameaça ainda os lençóis freáticos e altera a composição dos solos, afetando o abastecimento de água potável e a agricultura. Além disso, o avanço das águas acelera a erosão de praias e compromete infraestruturas urbanas como portos, avenidas e sistemas de drenagem, todos construídos em épocas em que o nível do mar era consideravelmente mais baixo.
César Barbedo Rocha, também professor do Instituto Oceanográfico da USP, destaca que os oceanos absorveram cerca de 90% do calor adicional gerado pelo aquecimento global nas últimas décadas. Isso ajudou a conter o aumento da temperatura do ar, mas agravou a situação marítima. Os efeitos já observados confirmam os piores cenários previstos por modelos climáticos.
A ciência utiliza uma combinação de tecnologias para acompanhar essas mudanças. Marégrafos instalados em regiões costeiras medem as variações locais, enquanto satélites monitoram o nível do mar em escala global desde os anos 1990. Sensores em navios e boias fornecem dados sobre o aquecimento das águas. Os resultados são claros: o mar está subindo mais rápido do que se previa. Em 2024, a NASA identificou um aumento anual de 0,59 cm — acima dos 0,43 cm esperados.
Embora não haja uma solução única para conter a elevação do nível do mar, especialistas apontam caminhos. A realocação de moradores e infraestruturas para áreas mais seguras, a recuperação de ecossistemas naturais como manguezais e dunas, e a implementação de obras pontuais de proteção são medidas possíveis para mitigar os efeitos nas regiões mais expostas.
No entanto, a tendência de elevação das águas deve continuar pelos próximos séculos, mesmo que o aquecimento global seja drasticamente reduzido agora. O que está em jogo é o ritmo desse avanço. A COP30, ao reunir lideranças globais no coração da Amazônia, será um espaço decisivo para traçar estratégias que podem retardar esse processo e proteger as populações costeiras do mundo inteiro.
