Cruzeiros contratados para COP30 em Belém geram desafios de mobilidade e preocupações ambientais

Governo do Pará aposta na conclusão de uma ponte para cumprir a promessa de trajeto em 30 minutos até pavilhões da cúpula.
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Para driblar os altos preços da rede hoteleira de Belém durante a COP30, em novembro, o governo federal optou por uma solução inédita: dois transatlânticos internacionais vão servir como hotéis flutuantes para os participantes da conferência. Juntos, o MSC Seaview e o Costa Diadema terão capacidade para receber mais de 6 mil pessoas em aproximadamente 3,9 mil cabines.

A medida, no entanto, abriu um novo ponto de tensão. As embarcações ficarão atracadas no Porto de Outeiro, na Ilha de Caratateua, cerca de 20 km do centro da capital paraense. O local foi escolhido após o governo suspender uma obra de dragagem de R$ 210 milhões no Terminal Hidroviário de Belém, que permitiria o acesso dos navios à região central, mas foi barrada por riscos ambientais.

Em Outeiro, as adaptações já consumiram R$ 180 milhões em investimentos, incluindo a construção de um píer de 710 metros, cuja entrega está prevista para meados de outubro, poucas semanas antes da conferência. O governo do Pará promete que o deslocamento dos delegados até o Parque da Cidade, onde serão realizados os principais eventos, levará cerca de 30 minutos. A estimativa depende, porém, da conclusão da ponte estaiada Outeiro-Icoaraci, obra ainda em andamento.

Um teste de trajeto realizado pela reportagem apontou dificuldades: em dia de trânsito leve, apenas o percurso entre o centro de Belém e a nova ponte levou mais de 35 minutos, sem considerar o trecho até o porto.

Impactos ambientais e pressões locais

Além da mobilidade, pesquisadores chamam atenção para outros impactos. Para atracar os transatlânticos, serão instaladas 11 estruturas metálicas conhecidas como dolphins, que servirão de apoio e segurança às embarcações. Mesmo parados, os navios precisam manter em funcionamento sistemas de energia e tratamento de efluentes.

Segundo o engenheiro de pesca Thiago Marinho Pereira, um transatlântico pode emitir, em média, 300 quilos de carbono por pessoa por dia. O governo federal afirma que as emissões da COP30 serão compensadas por meio da compra de créditos de carbono.

A geóloga Aline Meiguins, professora da UFPA, alerta que os efeitos vão além da poluição. “Belém nunca passou por um teste de mobilidade desse porte. A cidade precisa se organizar não apenas em transporte terrestre, mas também hidroviário”, observa. Ela aponta ainda riscos à segurança fluvial: Outeiro já concentra barcos de turismo e embarcações que ligam ilhas vizinhas, muitas em condições precárias.

As praias da região, tradicional destino turístico, também devem sofrer pressão com o fluxo extra de visitantes durante a conferência.

Hospedagem e custos

O modelo de operação foi definido em acordo com a ONU. Na primeira fase, delegações de 98 países em desenvolvimento e pequenos Estados insulares terão prioridade, com diárias em torno de US$ 220 (cerca de R$ 1,2 mil). Na segunda etapa, ONGs e demais participantes poderão reservar cabines, com valores que chegam a US$ 600 (cerca de R$ 3,3 mil).

Especialistas veem a iniciativa como medida emergencial. “Belém e poucas cidades brasileiras teriam condições de hospedar um evento dessa magnitude. Mas a solução acabou transferindo o impacto ambiental do centro para Outeiro”, analisa Pereira.

Enquanto o Brasil se prepara para sediar uma das conferências climáticas mais importantes do planeta, a capital paraense enfrenta seu próprio teste: conciliar logística, mobilidade e preservação ambiental para receber milhares de visitantes em novembro.

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