Posseiros do Cerrado enfrentam ameaças e disputas por terra no sul do Maranhão
Considerados guardiões do Cerrado por viverem de forma sustentável com pequenos roçados, criação de gado solto e extrativismo, comunidades tradicionais do bioma vêm sofrendo com a expansão do agronegócio e o avanço da grilagem. No Vão do Uruçu, a cerca de 300 quilômetros de Balsas (MA), mais de 20 famílias de posseiros relatam pressões para reduzir suas áreas de cultivo a 50 hectares ou abandonar o território.
As famílias afirmam ser alvo de ameaças e tentativas de expulsão por grupos que tentam tomar as terras para o plantio de soja. “A gente vive coagido”, conta o agricultor Osmar Paulo da Silva Santos, de 65 anos, pai de dez filhos. Outro morador, Salmon Leite Almeida, lamenta que o gado passa fome após incêndios destruírem pastagens: “Não tem como criar gado solto em 50 hectares”.
Nenhum dos posseiros possui escritura da terra, mas a advogada Rosane Ibiapino, do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Balsas, afirma que eles têm direito à posse com base na lei do usucapião. “Há mais de quatro décadas essas famílias ocupam a área de forma mansa e pacífica”, explica.
Maranhão lidera conflitos agrários no país
O Maranhão é o estado com mais conflitos por terra e água no Brasil, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Foram 420 casos em 2024, envolvendo mais de 100 mil pessoas. “Não há município maranhense sem registro de violência no campo”, afirma o juiz aposentado Jorge Moreno, do Comitê de Solidariedade à Luta pela Terra.
No Vão do Uruçu, posseiros relatam disparos de arma de fogo próximos às casas e sabotagens nas estradas. Em 2023, o Ministério Público denunciou a empresária Sheila Lustosa Parrião por mandar derrubar uma ponte pública que ligava comunidades locais. Sheila se apresenta como representante da empresa Cacir Agro, ligada à Penitente Empreendimentos companhia que comprou o terreno em disputa em 2022 por R$ 2,5 milhões. O imóvel está hipotecado à multinacional Bunge, que negou relação comercial com a empresa.
Agrotóxicos e desmatamento preocupam comunidades
A pulverização aérea de agrotóxicos é outro problema apontado pelos moradores. Em Boa Esperança, comunidade vizinha, o agricultor Fábio “Miúdo” Soares Sousa denuncia que o veneno lançado por aviões contamina casas e córregos. “O vento traz tudo pra cima da gente. As crianças vivem gripadas e o brejo está secando”, diz Raimunda, esposa de Fábio.
Dados do Ministério da Saúde mostram que os casos de intoxicação por agrotóxicos em Balsas triplicaram em 2024, passando de dez para 27 notificações. O desmatamento também avança: raízes arrancadas do solo denunciam áreas recém-abertas para soja nas margens de nascentes.
Mesmo sob pressão, Fábio, que vive em terras herdadas do avô, afirma que não pretende sair. “Enquanto eu estiver vivo, não saio daqui”, garante.
Regularização fundiária é aposta do governo
Para reduzir conflitos e combater a grilagem, o governo do Maranhão criou o programa Paz no Campo, que já entregou 18 mil títulos de propriedade e regularizou 27 comunidades quilombolas. O presidente do Iterma, Anderson Ferreira, afirma que o estado retomou mais de 150 mil hectares grilados e reconheceu 300 mil hectares de terras devolutas.
Ferreira reconhece, no entanto, que a expansão do agronegócio pressiona comunidades tradicionais. “À medida que o agro avança, surgem matrículas frágeis e sobreposições de posse. A regularização é essencial também para preservar o meio ambiente”, diz.
Série Fronteira Cerrado
Esta reportagem integra a série Fronteira Cerrado, da Agência Brasil, que investiga o impacto da expansão agrícola sobre os recursos hídricos do bioma. O projeto foi um dos oito selecionados na Seleção de Reportagens Nádia Franco, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).
