A imagem de um homem sendo transportado em uma rede por familiares, em pleno século XXI, expõe uma realidade persistente e dolorosa para comunidades isoladas no interior do Ceará. Antônio Marques, de 63 anos, sofreu um AVC em 2011 e desde então enfrenta dificuldades de locomoção. Nesta sexta-feira, 9 de maio, ele precisou ser levado até o hospital municipal de Meruoca, mas, sem ambulância disponível e sem estrada acessível, a família recorreu ao que tinha: uma rede e força de vontade.
Morador da Comunidade de Croatá, zona rural localizada a cerca de 12 quilômetros da sede do município, Antônio vive com a esposa em uma área de relevo acidentado, onde carros e motos não conseguem subir. Para levá-lo ao Hospital Chagas Barreto, familiares improvisaram um transporte rudimentar. Colocaram o idoso em uma rede e o carregaram por cerca de dez minutos até onde um carro conseguia chegar. De lá, seguiram até a unidade hospitalar — onde, segundo os relatos, nem mesmo uma cadeira de rodas estava disponível para recebê-lo.
Francisco Silva, cunhado do paciente, foi um dos que ajudou a carregar a rede. Ele contou que a solicitação de ambulância foi negada com a justificativa de que o veículo estava em outra ocorrência. Sem alternativa, organizou o transporte por conta própria. “Botamos ele na rede e levamos até o carro. Chegamos lá no hospital, não tinha gente nem para receber ele numa cadeira de rodas”, relatou.
A dificuldade enfrentada por Antônio não é isolada. A pequena comunidade, com cerca de 50 moradores, convive há anos com o problema de acesso. A ausência de estrada transitável faz com que todas as atividades cotidianas dependam de deslocamentos a pé. Até feiras e compras são deixadas no mesmo ponto onde o carro parou com o idoso.
Diante da repercussão, a Prefeitura de Meruoca afirmou, por meio de nota, que já iniciou providências para melhorar as condições de acesso à localidade. Informou ainda que uma equipe da Secretaria de Obras irá até Croatá na próxima segunda-feira para realizar estudos técnicos do terreno e avaliar soluções viáveis para a estrada. Segundo o município, a comunidade é oficialmente atendida pelo Posto de Saúde do Distrito de São Francisco, que possui uma ambulância, mas o veículo estava ocupado em outro atendimento no momento do chamado.
Enquanto isso, os moradores seguem contando uns com os outros para superar barreiras que, embora invisíveis aos olhos do poder público durante anos, tornam-se impossíveis de ignorar quando ganham rostos, nomes e histórias como a de Antônio.
