Nas salas de aula da Universidade Federal do Ceará (UFC), entre jovens recém-saídos do Ensino Médio, um grupo seleto de estudantes chama atenção não apenas pela idade, mas pela determinação. Eles têm 60 anos ou mais e representam menos de 0,3% do total de alunos da instituição. Entre esses 58 graduandos da chamada “melhor idade”, dois nomes se destacam: Francisco Verdiano, de 73 anos, o mais velho de toda a UFC, e Maria Desiree Diniz Miranda, de 66, ambos exemplos de coragem e amor pelo conhecimento.
Francisco Verdiano, aluno do curso de Arquitetura e Urbanismo, é natural da Serra da Meruoca e cresceu em meio à pobreza e à dura rotina da vida no campo. Filho de agricultores e um entre 21 irmãos, só pôde ingressar na escola aos 15 anos. Hoje, três anos depois de entrar para a UFC, já cursa o oitavo semestre da graduação, com presença quase impecável.
“Minha caneta foi a enxada”, costuma dizer, resumindo em uma frase a longa trajetória até a universidade. Com mais de 70 anos, resolveu buscar o diploma que sempre sonhou, após se aposentar de uma carreira dedicada a cargos administrativos no IBGE e na Caixa Econômica. No convívio com colegas de sala, muitos com menos de 20 anos, virou “o avô da turma” — título que carrega com bom humor e orgulho.
Enquanto isso, no curso de Letras, Desiree Diniz também vive seu renascimento acadêmico. Pernambucana radicada no Ceará há mais de três décadas, foi funcionária do Banco do Nordeste por mais de 40 anos e criou os três filhos sozinha após ficar viúva aos 29. Aos 17, chegou a ser aprovada em Administração na UFPE, mas o casamento precoce adiou os planos acadêmicos.
Depois da aposentadoria, a busca por novos sentidos a levou a fazer cursos profissionalizantes — e até a ajudar um neto nos estudos durante a pandemia. “Revisando o conteúdo com ele, percebi que ainda tinha muito a oferecer e a aprender”, conta. Em 2021, decidiu prestar o Enem e entrou na UFC. Atualmente, estuda Letras com habilitação em Português-Italiano.
Uma minoria que inspira
Os idosos da UFC estão espalhados por 26 cursos diferentes, sendo os de Letras e Engenharia de Pesca os que concentram o maior número deles — seis alunos cada. Apenas um desses 58 estudantes não está nos campi de Fortaleza: cursa Medicina em Sobral.
As motivações que os levam à universidade são diversas: realização de sonhos antigos, desejo de manter a mente ativa, busca por socialização ou simplesmente a paixão pelo saber. Os desafios, contudo, são reais: da adaptação ao ritmo acelerado dos colegas mais jovens à familiarização com tecnologias digitais e novas metodologias de ensino.
Mas tanto para Verdiano quanto para Desiree, o retorno aos bancos escolares representa mais do que um diploma. É uma afirmação de que a educação é um direito em qualquer fase da vida — e que o tempo nunca é um obstáculo para quem ainda tem vontade de aprender.
