Maria Toinha transforma memória em legado vivo e é finalista de prêmio nacional

A cerimônia será exibida no próximo dia 25 de maio, na TV Globo, após o Fantástico
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A pele marcada pelo sol do sertão e a voz firme que atravessa quase nove décadas de vida transformaram Maria Moura dos Santos, a Maria Toinha, em símbolo de resistência e sabedoria. Aos 89 anos, a mãe de santo do município de Paraipaba, no interior do Ceará, é finalista do Prêmio Sim à Igualdade Racial 2025, promovido pelo Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), na categoria Educação – Inspiração. A cerimônia será exibida no próximo dia 25 de maio, na TV Globo, após o Fantástico.

Nascida em 1936, Maria Toinha enfrentou uma vida de privações e preconceitos. Viveu a histórica seca de 1958, atravessando o sertão com uma criança no colo e uma trouxa na cabeça. Estudou até a 5ª série, mas formou-se na escola da vida, onde aprendeu lições que hoje compõem os quatro livros que assina, escritos com o neto e parceiro de vida, Marcos Andrade.

Foi ele quem, em 2016, ao pedir à avó que contasse suas memórias para um trabalho escolar, iniciou um projeto que viria a restaurar sua história — e sua identidade. Após perder parte da memória devido a uma pancreatite aguda, Maria reencontrou-se enquanto narrava sua trajetória. O primeiro livro, A mística dos Encantados, foi o ponto de partida para uma obra literária que une saberes ancestrais, religião de matriz africana e experiências vividas.

Mulher, negra, afroindígena, mãe de santo e umbandista desde os 14 anos, Maria enfrentou o preconceito religioso e o racismo com a serenidade de quem transforma dor em ensinamento. “Nem queira saber o que eu passei. Todo mundo me empurrava. Graças a Deus passei por cima”, diz, com a calma de quem já venceu muitas batalhas. Ela, que cita a Bíblia enquanto fala da missão espiritual, diz que aprendeu a amar por meio da umbanda. “Os mensageiros que a gente trabalha ensinam a gente a ser humano.”

Maria e Marcos compartilham uma relação rara de afeto e troca. Foi ele quem cuidou da avó durante as doenças, ainda criança. É ele quem transcreve, organiza e respeita a voz dela em cada obra. A parceria familiar também é resistência cultural: “A narrativa só existe porque a voz dela encaminhou a isso”, afirma o neto, hoje mestre em Sociologia.

O reconhecimento nacional que se apresenta agora é inédito para ela, mas não menos merecido. “Tô emocionada, porque na idade que eu tô nunca tinha passado por isso. Depois de madura, já tomando conta das responsabilidades, saí pelejando. Tô satisfeita”, resume, entre sorrisos e memórias.

No caminho até aqui, Maria Toinha enfrentou pobreza extrema, intolerância religiosa, AVCs e esquecimento. Agora, escolhe deixar como herança o que aprendeu em quase nove décadas: fé, amor, sabedoria e paz. “O caminho da gente é de espinho e toco. A estrada limpa é a da perdição. Sempre aconselho os rapazinhos a conviverem tranquilos. É muito bom a paz e a felicidade.”

Finalista ao lado da Cacica Maria Valdelice, do povo Tupinambá de Olivença (BA), Maria Toinha já é, por si só, vencedora. Seu legado é feito de palavras, curas, histórias e afeto — uma vida transformada em ponte entre o passado e o futuro, entre a tradição e o sonho de igualdade.

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