Mais uma vez, a tragédia nos alcança com um rosto familiar. Em Sobral, no bairro Sinhá Sabóia, uma jovem chamada Camila foi morta dentro da própria casa, segundo as suspeitas, pelo companheiro Paulo Jander, que em seguida teria tirado a própria vida. Tudo isso na presença do filho pequeno do casal. É um retrato brutal e recorrente da violência que, infelizmente, deixou de ser exceção nos lares brasileiros.
O que choca não é apenas a morte, mas o silêncio acumulado que antecede o grito final. Vizinhos relatam que as brigas eram frequentes, audíveis, constantes. A rua ouvia, mas o poder público continuava surdo. É a violência doméstica com suas múltiplas camadas: física, psicológica, estrutural. Um ciclo que se perpetua porque o entorno normaliza, porque o Estado falha, porque o medo cala, e porque a rede de proteção, quando existe, chega tarde demais.
Camila agora entra para uma estatística que cresce sem cessar. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada seis horas, uma mulher é assassinada no Brasil, na maioria das vezes por um companheiro ou ex-companheiro. Não é sobre um crime passional, é sobre controle, opressão, desumanização. E cada caso como este escancara o quanto ainda falta para transformar a casa, que deveria ser abrigo, em um lugar verdadeiramente seguro.
O filho pequeno, testemunha inocente da barbárie, é a cicatriz viva que esta história deixa. Crescerá com a ausência de ambos os pais, mas com a memória marcada por um episódio de terror que nenhuma infância merece carregar. É por ele, por Camila, por todas as que ainda estão vivas mas sob ameaça, que é urgente revisar como tratamos a violência doméstica.
Não basta lamentar depois. É preciso prevenir antes. É preciso que a denúncia seja acolhida e não ignorada. Que a vizinhança saiba que ouvir e se calar é também pactuar. Que os serviços de proteção sejam acessíveis e eficazes. Que os homens sejam responsabilizados, sim, mas também reeducados antes que destruam vidas.
A tragédia de Sobral não é um ponto fora da curva, é um alerta do que ainda permitimos, do que ainda ignoramos e do que insistimos em chamar de “casos isolados”. Que não se cale o grito de Camila, mesmo que ela já não possa mais falar.
