Durante a pandemia, como muitos brasileiros, a professora Kallyne Kafuri Alves viu seu corpo mudar. O peso que se acumulava, especialmente nas pernas, parecia imune aos exercícios e à reeducação alimentar. A dor constante e o inchaço traziam desconforto diário, mas a explicação só veio por acaso, numa conversa com uma aluna: o nome daquilo era lipedema.
O que parecia um simples ganho de peso era, na verdade, uma doença crônica, inflamatória e progressiva que afeta, em 99% dos casos, mulheres. Caracterizada pelo acúmulo anormal de gordura em áreas específicas do corpo, como pernas, coxas e braços, o lipedema ainda é pouco conhecido — até mesmo entre profissionais da saúde.
Segundo o cirurgião vascular Vitor Gornati, da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular, estima-se que até 12% das mulheres brasileiras possam ter algum grau da doença, muitas vezes sem saber. De origem genética e fortemente influenciado por hormônios como o estrogênio, o lipedema frequentemente aparece na adolescência, mas costuma ser confundido com obesidade ou má alimentação.
Além do impacto estético, o lipedema compromete a qualidade de vida com dores, hematomas espontâneos e dificuldades de mobilidade. Também está associado a uma maior incidência de varizes e lesões nas articulações, como joelhos e quadris, devido à sobrecarga provocada pelo volume e pela dificuldade de ganho muscular.
O tratamento, até o momento, é multidisciplinar e sem cura definitiva. Inclui mudanças alimentares, prática de atividades físicas específicas, drenagem linfática e liberação miofascial. Nos casos mais severos, a lipoaspiração pode ser indicada para retirar o tecido adiposo comprometido. Kallyne segue esse caminho e relata que o inchaço pode ser tão intenso que, em dias sem exercício ou fora da dieta, chega a ganhar dois quilos de um dia para o outro.
Mais do que os sintomas físicos, há um componente emocional significativo na trajetória de quem convive com o lipedema. O estigma em torno do peso, aliado à falta de informação, prolonga o sofrimento de muitas mulheres. “Ainda hoje, muita gente acha que a pessoa está assim por preguiça, falta de disciplina. Isso é reflexo de uma sociedade machista e gordofóbica que não investiu em pesquisas porque é uma doença que atinge mulheres”, desabafa a professora.
A invisibilidade do lipedema e a demora no diagnóstico mostram como o desconhecimento pode afetar a autoestima e o bem-estar. Para o médico Vitor Gornati, o reconhecimento da doença traz alívio para muitas pacientes que passaram anos se culpando. “É comum ver mulheres que chegam ao consultório emocionadas ao descobrir que existe uma explicação médica para o que sentem há décadas”, relata.
Enquanto a medicina avança lentamente em busca de alternativas medicamentosas, histórias como a de Kallyne trazem à tona uma urgência: é preciso enxergar o lipedema como uma condição real, romper o silêncio e o preconceito, e garantir que mais mulheres tenham acesso à informação, ao diagnóstico e ao tratamento adequado.
