O Brasil pode enfrentar sérias dificuldades para garantir o fornecimento de energia elétrica nos horários de maior consumo, especialmente ao fim do dia, caso não retome com urgência os leilões específicos para contratação de potência. A advertência é do Plano da Operação Energética (PEN 2025), divulgado nesta terça-feira (8) pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que traça o panorama do setor entre 2025 e 2029.
O relatório destaca que, embora a geração de energia tenha crescido, esse aumento tem sido puxado por fontes intermitentes, como solar e eólica, que produzem menos ou nada justamente nos horários críticos do sistema. Com isso, o país terá de recorrer com mais frequência ao acionamento de termelétricas, cuja operação é mais cara e ambientalmente desfavorável. A dependência das térmicas será ainda mais acentuada a partir de outubro, segundo a projeção do operador.
Entre as medidas emergenciais analisadas para mitigar o risco de apagões está a possível volta do horário de verão, extinto durante o governo Bolsonaro. A mudança no relógio, que reduz o consumo no fim da tarde, poderá ser recomendada caso os cenários futuros confirmem a dificuldade no suprimento.
No longo prazo, a situação também preocupa. O estudo revela que todos os anos entre 2026 e 2029 apresentarão violação do nível de confiança para a oferta de potência, evidenciando uma fragilidade estrutural no sistema. A ausência de leilões de reserva de capacidade, como o que foi cancelado este ano após uma portaria do Ministério de Minas e Energia, agrava ainda mais o cenário.
Com a previsão de que a capacidade instalada alcance 268 GW até 2029 — dos quais quase um terço virá da mini e microgeração distribuída solar — o perfil da matriz elétrica nacional está mudando rapidamente. Essa transformação exige novas estratégias de operação, já que as fontes renováveis, embora limpas, são menos controláveis e nem sempre entregam energia nos momentos de maior necessidade.
O ONS reforça que o sistema precisa de mais flexibilidade e que usinas com longos tempos de resposta, como térmicas inflexíveis, não devem ser priorizadas. A recomendação é ampliar a oferta com usinas mais adaptáveis à variação da demanda e às oscilações das fontes intermitentes ao longo do dia.
Outro alerta é sobre a entrada de cargas especiais, como data centers e usinas de hidrogênio verde, que têm alto consumo e pouca flexibilidade operacional. Essas novas demandas pressionam ainda mais o sistema, sobretudo no horário noturno, quando já existe um déficit de potência.
A recomendação final do PEN 2025 é clara: a realização urgente de leilões anuais de reserva de capacidade é essencial para evitar colapsos energéticos e garantir a segurança do abastecimento diante da nova realidade do setor elétrico brasileiro.
