A imposição de tarifas elevadas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros — medida implementada no governo de Donald Trump — provocou prejuízos significativos a exportadores do Ceará e vem forçando uma reorientação comercial estratégica. Em busca de novos mercados, empresários dos setores de castanhas, frutas e rochas ornamentais têm intensificado diálogos com a China, na tentativa de driblar os efeitos do chamado “tarifaço”, que aumentou em até 50% o custo de exportação para o mercado norte-americano.
Amanda D’Ávila, coordenadora da Câmara Chinesa de Comércio do Brasil (CCCB), confirmou que representantes de setores afetados procuraram a instituição para discutir alternativas de negócios com o país asiático. Ela destaca que, embora ainda não haja contratos fechados, já existem tratativas em andamento.
“O Ceará está em evidência por conta dessa instabilidade nas relações comerciais com os EUA. Vemos muito potencial de expansão com a China”, afirmou Amanda.
Segundo a coordenadora, produtos como castanhas apresentam alto potencial exportador, enquanto frutas frescas enfrentam obstáculos logísticos, o que aponta para uma saída via produtos processados. Já o setor de rochas ornamentais, que não foi impactado pelas tarifas americanas, busca ampliar sua presença no mercado chinês, além de manter negócios consolidados com Estados Unidos e Europa.
O Ceará é o estado brasileiro com maior dependência das exportações para os EUA, que representam cerca de 50% da balança comercial local. Com as novas tarifas, cadeias produtivas inteiras foram afetadas. A ajuda prometida pelo governo federal foi considerada insuficiente ou temporária por muitos empresários, o que reforça a necessidade de diversificação de mercados.
A manutenção de rotas marítimas entre o Porto do Pecém e a China também tem sido vista como um facilitador. “A logística já existente favorece a criação de novas parcerias comerciais”, acrescentou Amanda.
Desconhecimento ainda é barreira
Apesar do interesse crescente, ainda há lacunas de conhecimento sobre o mercado chinês entre empresários cearenses. Durante o evento “Panorama Brasil-China 2025: Oportunidades de Negócios”, realizado em Fortaleza, Amanda destacou que muitos empreendedores ainda desconhecem aspectos fundamentais da economia e da cultura de negócios da China.
Diante de um público de cerca de 80 empresários, ela apresentou dados sobre as principais cidades chinesas, seus PIBs, vocações industriais e oportunidades comerciais. Segundo Amanda, a cultura de negócios na China é baseada em relacionamento de confiança, visão de longo prazo e excelência na execução.
“Historicamente, recebíamos uma demanda maior por importações. Agora, vemos crescer a busca por exportações — e com bastante interesse do empresariado local”, relatou.
Importações também fazem parte da estratégia
A CEO da NTCargo, Gabriela Marcondes, também observa uma movimentação importante: empresas cearenses estão recorrendo à importação de insumos e maquinários chineses como parte da preparação para oferecer produtos mais competitivos no exterior. Com 15 anos de experiência em logística internacional, Gabriela reforça que o movimento reflete uma mudança de mentalidade.
“Percebeu-se que, para exportar com qualidade, é preciso investir em tecnologia e insumos que muitas vezes não são encontrados no Brasil. O Ceará passou a importar mais com essa visão estratégica”, explicou.
Para ela, o momento representa não só um desafio, mas uma oportunidade: “Estamos vendo empresas que nunca haviam feito negócios com a China agora explorando esse caminho e tentando entender melhor como funciona o mercado asiático”.
