Mesmo condenado a mais de oito anos de prisão por propagar conteúdos discriminatórios, o humorista Leo Lins reapareceu nos palcos com o espetáculo “Enterrado Vivo”, apresentado no Teatro Gazeta, em São Paulo. Em frente a uma plateia de cerca de 720 pessoas com celulares lacrados por determinação da defesa, o comediante retomou o estilo que o colocou no centro de uma das mais polêmicas discussões sobre os limites da comédia no Brasil.
Durante a apresentação, Lins fez piadas com temas sensíveis e grupos socialmente vulneráveis, como negros, pessoas com deficiência, indígenas, soropositivos e vítimas do nazismo. Também ironizou o tratamento de câncer da cantora Preta Gil, ao comentar um processo que ela moveu contra ele por danos morais, em 2019. Segundo o relato, o humorista afirmou no palco que, após receber o processo, Preta Gil foi diagnosticada com câncer e completou a piada dizendo que “pelo menos ela vai emagrecer”, provocando reações de choque e riso entre os presentes.
Em tom desafiador, Lins também fez questão de ironizar a própria condenação, comparando sua pena com a de réus por homicídio: “A mensagem da Justiça é: se você é preconceituoso, não faça piada, mate.” A declaração foi recebida por parte da plateia com aplausos e gargalhadas, num ambiente controlado em que gravações foram rigorosamente proibidas.
A condenação do humorista foi proferida pela 3ª Vara Criminal Federal de São Paulo, com base em um show gravado em 2022 em Curitiba, cujo conteúdo foi classificado como ofensivo e discriminatório. O vídeo, intitulado “Perturbador”, chegou a alcançar três milhões de visualizações nas redes sociais antes de ser retirado do ar em agosto de 2023.
Ainda assim, Lins utiliza os processos judiciais e as restrições como material promocional. A sinopse oficial de seu novo espetáculo exibe com orgulho os episódios de censura e proibição em mais de 50 cidades, transformando o embate judicial em estratégia de marketing. “Quanto mais tentam me calar, mais ouvido eu sou. Até surdo já me escuta”, disse o comediante no palco, reafirmando seu posicionamento de que tudo se trata de uma encenação e que o personagem não reflete suas opiniões pessoais.
A apresentação em São Paulo é mais um capítulo de uma trajetória marcada por controvérsias, onde a liberdade de expressão e os limites do humor seguem em confronto direto com a dignidade e os direitos de grupos historicamente marginalizados. Enquanto a Justiça mantém sua posição, Leo Lins continua usando o palco como trincheira e o escândalo como combustível para manter a atenção do público.
