A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou um novo medicamento para o tratamento do mieloma múltiplo, um dos tipos mais comuns de câncer do sangue no Brasil. A doença registra, em média, 7 mil novos casos por ano no país, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca).
O fármaco, chamado Blenrep (belantamabe mafodotina), é um anticorpo conjugado indicado para pacientes que apresentaram recaída ou resistência a terapias anteriores. Estudos clínicos internacionais mostraram que o novo tratamento reduz em até 59% o risco de progressão da doença ou morte, além de quase triplicar a sobrevida livre de progressão.
A aprovação marca a chegada de uma nova classe terapêutica ao Brasil, que combina imunoterapia e terapia alvo. O medicamento atua diretamente nas células doentes da medula óssea, liberando uma carga quimioterápica dentro delas e induzindo sua destruição.
De acordo com a farmacêutica GSK, responsável pelo desenvolvimento do produto, o Blenrep deve estar disponível na rede privada de saúde em até 90 dias. A novidade foi anunciada durante um evento realizado na última terça-feira (28), em São Paulo.
Resultados e estudos
A pesquisa que comprovou a eficácia do Blenrep — chamada DREAMM-7 — contou com participação brasileira em oito centros de pesquisa. O estudo comparou a combinação de belantamabe mafodotina, bortezomibe (quimioterápico) e dexametasona (corticoide) com outras terapias convencionais, demonstrando resultados significativamente melhores em controle da doença e sobrevida global.
A médica hematologista Vania Hungria, que coordenou os estudos no Brasil, explica que o novo tratamento ajuda a conter o processo inflamatório e o dano à medula óssea, o que evita a formação de “cicatrizes” que prejudicam a produção de células sanguíneas. “É uma terapia moderna, que alia precisão e potência, oferecendo uma nova perspectiva para pacientes que já haviam esgotado outras opções”, afirmou.
Efeitos adversos e acompanhamento
Durante os testes, o principal efeito colateral observado foram alterações oculares, como pequenos cistos na córnea, relatados em 79% dos pacientes tratados. Em cerca de 28% dos casos, foi necessário interromper temporariamente o uso da medicação. A especialista ressalta, no entanto, que a maioria dessas reações é reversível e pode ser controlada com acompanhamento oftalmológico.
A pesquisa foi publicada no prestigiado The New England Journal of Medicine, e o medicamento já conta com aprovação em países da Europa e no Reino Unido.
Com a decisão da Anvisa, o Brasil passa a integrar o grupo de nações que oferecem acesso a terapias inovadoras contra o mieloma múltiplo, ampliando as possibilidades de tratamento e sobrevida para milhares de pacientes.
