O Brasil tem apresentado sinais de recuperação na cobertura vacinal infantil, mas os avanços ainda são marcados por grandes disparidades entre estados e municípios e por altos índices de esquemas vacinais incompletos. É o que revela o Anuário VacinaBR, produzido pelo Instituto Questão de Ciência em parceria com a Sociedade Brasileira de Imunizações e o Unicef.
O levantamento mostra que, em 2023, nenhuma das vacinas infantis do calendário nacional atingiu a meta de 95% de cobertura em todos os estados. As mais críticas foram as imunizações contra poliomielite, meningococo C, varicela e Haemophilus influenzae tipo B, que não alcançaram a meta em nenhuma unidade da federação.
Menos de um terço dos municípios brasileiros conseguiu atingir a cobertura esperada para as quatro vacinas consideradas prioritárias: pentavalente, poliomielite, pneumo-10 e tríplice viral. Enquanto o Ceará lidera o desempenho, com 59% das cidades cumprindo as metas, no Acre o índice foi de apenas 5%.
Mesmo vacinas historicamente bem aceitas, como a BCG, aplicada logo após o nascimento, enfrentam dificuldades. Em 11 estados, a cobertura ficou abaixo de 80%, e no Espírito Santo, menos de 58% dos recém-nascidos foram imunizados. A desigualdade é evidente inclusive entre municípios vizinhos, que, apesar de condições semelhantes, exibem taxas de vacinação muito diferentes.
O cenário evidencia que a responsabilidade compartilhada entre União, estados e municípios exige estratégias adaptadas às realidades locais. Para os especialistas, o problema vai além da oferta. A diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, Isabela Ballalai, aponta a baixa percepção de risco e o acesso limitado como os principais fatores para a hesitação vacinal. A falta de informação adequada, horários restritos de funcionamento e a indisponibilidade pontual das vacinas afetam diretamente a continuidade dos esquemas vacinais.
As taxas de abandono permanecem elevadas desde 2018, refletindo a dificuldade em garantir que as crianças completem todas as doses necessárias. A vacina tríplice viral, por exemplo, teve a segunda dose aplicada em menos da metade do público-alvo em 14 estados. Nenhum deles atingiu a meta nacional. Essa vacina protege contra sarampo, caxumba e rubéola, doenças que podem ter consequências graves, principalmente para crianças pequenas.
O diretor do Instituto Questão de Ciência, Paulo Almeida, afirma que as campanhas tradicionais perderam parte de sua força diante das novas dinâmicas de comunicação. Para ele, o uso de tecnologias como mensagens por SMS e horários mais flexíveis de vacinação podem ser caminhos eficazes para ampliar a cobertura. Ele destaca também a importância de utilizar escolas como pontos estratégicos de imunização e conscientização.
A experiência escolar é apontada como uma aliada no combate à hesitação vacinal, pois facilita o acesso, proporciona informação de qualidade e estreita o diálogo entre a comunidade e os profissionais de saúde. A retomada da confiança nas vacinas passa, segundo os especialistas, pela combinação de planejamento, informação e presença ativa do Estado em todos os territórios.
