Mococa, uma pequena cidade com pouco mais de 67 mil habitantes no norte do estado de São Paulo, tornou-se pioneira em uma mudança estratégica no combate ao câncer de mama e de colo do útero. Desde o final de abril, duas das 13 unidades básicas de saúde do município passaram a adotar uma abordagem ativa para o rastreamento dessas doenças. Em vez de esperar que as mulheres busquem atendimento médico para, então, serem encaminhadas aos exames preventivos, as equipes de saúde passaram a identificar e convidar diretamente as pacientes que pertencem às faixas etárias de maior risco.
Essa mudança, viabilizada por um programa de computador que cruza dados do Ministério da Saúde com os do município, visa não apenas aumentar o número de diagnósticos precoces, mas também acelerar o início do tratamento. A estratégia pode ajudar a reverter uma tendência preocupante no Brasil: o aumento da mortalidade por esses dois tipos de câncer, sobretudo entre mulheres jovens.
Coordenado pela Fundação Oncocentro de São Paulo (Fosp) e com apoio de universidades paulistas e da Organização Mundial da Saúde, o projeto ConeCta-SP pretende reorganizar o modelo vigente de rastreamento, considerado ineficiente por especialistas. Até então, o sistema adotado no Brasil era oportunista, baseado na iniciativa da paciente. Agora, com a abordagem ativa e informatizada, as UBS podem monitorar quem deve realizar os exames e acompanhar os casos com mais rigor. A previsão é que, até o fim de junho, o modelo seja implementado em unidades de saúde de mais 19 municípios paulistas, e chegue a outras regiões do estado até setembro.
O esforço vem em resposta a dados alarmantes. De 2000 a 2021, a taxa de mortalidade por câncer de mama no Brasil cresceu de 10,5 para 11,8 óbitos por 100 mil mulheres, segundo estudo do Instituto Nacional de Câncer (Inca). O dado contrasta com a estabilidade na taxa de novos casos, sugerindo falhas na detecção precoce e no acesso ao tratamento. A situação é ainda mais crítica entre mulheres com menos de 40 anos, cuja mortalidade aumentou a uma média de 1,8% ao ano. O problema também é agravado por disparidades raciais e sociais: entre mulheres negras, a taxa de mortalidade cresceu quase quatro vezes mais do que entre as brancas.
O câncer de colo do útero, embora prevenível por meio da vacina contra o HPV, também apresenta aumento de mortes entre as jovens. Estudo recente mostrou que, desde 2014, a taxa de mortalidade deixou de cair e passou a subir discretamente, sobretudo entre mulheres de 20 a 39 anos. A vacinação, gratuita e eficaz, ainda não atinge toda a população-alvo. Em 2023, apenas 82,5% das meninas entre 9 e 14 anos haviam sido imunizadas, abaixo da meta de 90% proposta pela OMS.
Outro fator que contribui para o agravamento dos quadros é o atraso no início do tratamento. Apesar de uma lei federal garantir que o tratamento oncológico se inicie em até 60 dias após o diagnóstico, ela ainda é descumprida com frequência. Em 2024, 41% das pacientes com câncer de mama e 47,7% com câncer de colo do útero atendidas pelo SUS começaram o tratamento fora do prazo legal, com grandes variações entre estados.
Além de deficiências estruturais do sistema de saúde, fatores pessoais também influenciam o diagnóstico tardio. Em entrevistas com mulheres e profissionais de saúde, pesquisadores identificaram dificuldades como falta de informação, medo, vergonha e desafios logísticos, como a distância até os locais de exame. Entre as mais jovens, o desafio é maior: muitas não são contempladas pelos programas de rastreamento e, quando apresentam sintomas, os sinais podem ser subestimados pelos profissionais.
A experiência de Mococa pode ser o ponto de partida para uma virada nesse cenário. Ao unir tecnologia, proatividade e acompanhamento sistemático, o novo modelo pretende dar um passo decisivo rumo à redução das mortes por câncer de mama e colo do útero no Brasil. Se bem-sucedida, a estratégia poderá servir de modelo para outras regiões e reforçar a importância de políticas públicas baseadas em evidência, equidade e prevenção.
