Uma pesquisa conduzida pela neurocientista francesa Laure Verret revelou que a socialização é capaz de reativar neurônios em camundongos com Alzheimer, ajudando a preservar a memória e a normalizar o comportamento dos animais. O estudo foi realizado no Centro de Pesquisas sobre a Cognição Animal da Universidade de Toulouse, no sudoeste da França, e mostra como estímulos do ambiente podem despertar mecanismos cerebrais afetados por doenças neurodegenerativas.
Segundo Verret, a influência do ambiente na perda cognitiva é um tema estudado há décadas e já se sabe que atividades sociais, cognitivas e físicas podem retardar o surgimento dos sintomas de Alzheimer em humanos, mesmo após o diagnóstico. Isso ocorre graças à chamada reserva cognitiva, uma espécie de proteção natural do cérebro.
Durante o experimento, cerca de 12 camundongos com déficits cognitivos iniciais foram reunidos por dez dias em uma gaiola enriquecida com objetos variados. Depois retornaram ao isolamento por 20 dias. O objetivo era observar por quanto tempo os efeitos positivos da socialização persistiriam. O resultado surpreendeu: os animais recuperaram funções cognitivas, reconhecendo outros camundongos e demonstrando sinais de restauração do hipocampo, região essencial para a memória e altamente afetada pela doença.
A equipe então buscou entender o que ocorria no cérebro desses animais. A investigação se concentrou nos neurônios parvalbumina (PV), conhecidos como “maestros” do cérebro por regularem a atividade de outras células. Esses neurônios costumam falhar em casos de Alzheimer, comprometendo o equilíbrio das conexões cerebrais.
Para comprovar a relação entre a socialização e a recuperação neuronal, os pesquisadores testaram a ação das redes perineuronais, estruturas que protegem as conexões dos neurônios PV. Uma molécula foi utilizada para impedir a formação dessas redes em parte do hipocampo. O resultado mostrou que apenas as áreas não afetadas pela molécula apresentavam melhora da memória, confirmando a ligação direta entre a ativação dos neurônios PV e o comportamento mais saudável.
Os cientistas também aplicaram neuregulina, proteína presente naturalmente no cérebro, que ajudou a restaurar a atividade neural e a memória dos animais com Alzheimer.
Os achados reforçam uma mensagem essencial: estímulos sociais, sensoriais e cognitivos têm impacto direto na preservação das funções cerebrais, podendo atrasar o declínio cognitivo com ou sem medicamentos. Para Laure Verret, o estudo abre caminho para novas abordagens terapêuticas que valorizem a socialização, principalmente entre idosos. “A grande novidade é que esse neurônio pode ser um alvo terapêutico, mesmo sem medicamentos, apenas com estímulos ambientais, sensoriais e sociais”, destaca a pesquisadora.
Fonte: G1
