Pesquisa inédita explica por que o bronzeamento artificial favorece o câncer de pele mais agressivo

Um estudo robusto publicado nesta semana na revista Science Advances lança nova luz sobre uma questão central da dermatologia:
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Um estudo robusto publicado nesta semana na revista Science Advances lança nova luz sobre uma questão central da dermatologia: de que forma o bronzeamento artificial contribui para o desenvolvimento do melanoma, o câncer de pele mais agressivo. Mais do que confirmar o risco já conhecido, a pesquisa detalha os mecanismos biológicos que explicam por que esse tipo de exposição é tão perigoso.

De acordo com os pesquisadores, o uso de câmaras de bronzeamento aumenta significativamente a carga de mutações nos melanócitos células responsáveis pela produção de melanina e espalha esse dano por regiões do corpo que normalmente recebem pouca radiação solar. Com isso, um número maior de células fica “mais perto” de se transformar em câncer.

O trabalho reuniu duas abordagens raramente combinadas: uma análise epidemiológica de grande escala, com mais de 5,8 mil prontuários, e um estudo molecular em nível de célula única, com sequenciamento genético de melanócitos de pele considerada normal.

Mais melanoma, mais cedo e em locais inesperados

Ao examinar registros de cerca de 32 mil pacientes atendidos em um serviço de dermatologia de alto risco da Northwestern University, os autores identificaram quase 3 mil pessoas com histórico mensurável de bronzeamento artificial. Mesmo após ajustes para fatores como idade, sexo, histórico familiar e queimaduras solares, o uso dessas câmaras quase triplicou o risco de melanoma. Quanto maior o número de sessões, maior foi o risco observado.

Um achado chamou atenção: entre usuários de bronzeamento artificial, os melanomas surgiram com mais frequência em áreas de baixo dano solar cumulativo, como tronco e costas regiões normalmente cobertas por roupas. Além disso, esses pacientes apresentaram maior incidência de melanomas múltiplos ao longo da vida.

O que acontece dentro da célula

Para entender o mecanismo por trás desse padrão, os pesquisadores sequenciaram melanócitos de pele normal de 11 usuários intensivos de bronzeamento artificial alguns com mais de 750 sessões ao longo da vida e compararam os resultados com grupos controle.

O resultado foi claro: os melanócitos de quem usou bronzeamento artificial apresentaram quase o dobro de mutações por megabase de DNA em relação aos controles. A diferença foi ainda mais marcante na parte inferior das costas, uma área pouco exposta ao sol natural, mas intensamente irradiada durante as sessões.

Um “campo” maior de células em risco

Além do aumento no número de mutações, os melanócitos desses usuários apresentaram maior proporção de mutações patogênicas, inclusive em genes associados diretamente ao melanoma. Na prática, isso significa uma área maior da pele repleta de células pré-cancerosas.

Os autores comparam esse efeito ao que ocorre no melanoma familiar, em que uma mutação hereditária deixa todas as células mais vulneráveis. No caso do bronzeamento artificial, porém, o “primeiro golpe” vem da radiação ultravioleta artificial, não do DNA herdado.

UVA não é mais seguro

A indústria do bronzeamento costuma alegar que suas lâmpadas emitem principalmente radiação UVA, considerada menos mutagênica que o UVB. O estudo desmonta esse argumento: embora o perfil seja diferente do sol, a intensidade total de UVA nas câmaras é muito maior, suficiente para causar danos genéticos relevantes.

As assinaturas de mutação encontradas são típicas da radiação ultravioleta. Os cientistas também observaram aumento de uma assinatura específica (SBS11), ainda não totalmente compreendida, mas mais frequente em melanócitos de usuários de bronzeamento artificial.

Impactos para a saúde pública

As conclusões reforçam alertas já conhecidos. A Organização Mundial da Saúde classifica as câmaras de bronzeamento como carcinógeno do grupo 1 a mesma categoria do tabaco e do amianto e a Academia Americana de Dermatologia se posiciona contra seu uso. Ainda assim, milhões de pessoas, inclusive adolescentes, recorrem ao bronzeamento artificial todos os anos.

Para os autores, os novos dados tornam insustentável qualquer argumento de segurança ou de que o bronzeamento “prepara” a pele para o sol. Pelo contrário: ele amplia silenciosamente o terreno onde o melanoma pode surgir, inclusive muitos anos após a exposição.

O que é o melanoma e por que ele é tão perigoso

O melanoma é um câncer de pele que se origina nos melanócitos. Embora represente apenas 1% a 3% dos tumores cutâneos, é o mais agressivo e responde pela maioria das mortes por câncer de pele.

Geralmente surge como uma pinta que muda de cor, forma ou tamanho. Quanto mais profundo e irregular o tumor, maior tende a ser sua agressividade. O grande perigo está na alta capacidade de se espalhar para outros órgãos, como linfonodos, pulmões, fígado e cérebro, quando não diagnosticado precocemente.

Quando detectado no início, as chances de cura são elevadas; em fases avançadas, o tratamento se torna mais complexo e a mortalidade aumenta. Diferentemente do melanoma, o carcinoma basocelular cresce lentamente e raramente causa metástases, enquanto o carcinoma espinocelular é mais agressivo, sobretudo em pessoas imunossuprimidas.

“O melanoma costuma ser uma pinta que muda. Já os carcinomas aparecem, em geral, como feridas que não cicatrizam por mais de um mês”, explica João Duprat, líder do Centro de Referência em Tumores Cutâneos do A.C. Camargo Cancer Center.

Fonte: G1

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