Semaglutida protege o coração mesmo sem grande perda de peso, indica maior estudo já feito

Em entrevista exclusiva ao g1, Mette Thomsen, vice-presidente sênior da área médica global da Novo Nordisk, afirma que os efeitos cardioprotetores da semaglutida vão além da perda de peso
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Em entrevista exclusiva ao g1, Mette Thomsen, vice-presidente sênior da área médica global da Novo Nordisk, afirma que os efeitos cardioprotetores da semaglutida vão além da perda de peso. Segundo a executiva, novos dados indicam que a substância reduz o risco de problemas cardíacos independentemente do quanto o paciente emagrece.

A análise mais recente do estudo SELECT, publicada na revista The Lancet, reforça essa conclusão. Trata-se do maior ensaio clínico já conduzido para avaliar os benefícios cardiovasculares da semaglutida — princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy, usados no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade.

Proteção cardíaca além da balança

Thomsen explica que “não há relação direta entre o grau de perda de peso e a magnitude da redução do risco cardiovascular”. Para ela, isso sugere que a substância exerce efeitos adicionais, ainda não totalmente compreendidos.

Estudos anteriores do SELECT já haviam mostrado que o medicamento reduz em até 20% a ocorrência de eventos cardiovasculares em pessoas com obesidade e doença cardíaca estabelecida, mesmo sem diabetes. Agora, os pesquisadores constataram que essa redução não depende do percentual de peso perdido.

Por outro lado, a redução da circunferência abdominal, que indica queda da gordura visceral, foi associada a desfechos cardíacos mais favoráveis.

O que o SELECT revelou

O estudo acompanhou mais de 17 mil adultos com doença cardiovascular e IMC igual ou superior a 27, comparando semaglutida e placebo. Embora os resultados mostrem clara proteção cardíaca, o mecanismo biológico responsável ainda é desconhecido.

Thomsen afirma que a semaglutida pode ter propriedades únicas entre os agonistas de GLP-1 categoria de medicamentos que imita o hormônio responsável por regular apetite e glicemia. Segundo ela, há indícios de que o efeito anti-inflamatório da molécula possa contribuir para os benefícios observados.

A análise também estimou o impacto da perda de peso no risco cardíaco: a cada 5 kg a menos, houve uma redução média de 4% no risco cardiovascular, e uma queda de 5 cm na cintura teve efeito semelhante. Porém, entre os pacientes que emagreceram, o risco de eventos cardíacos foi praticamente igual independentemente de terem perdido mais ou menos de 5% do peso — reforçando que o mecanismo não se limita ao emagrecimento.

Mais benefícios da semaglutida

Além dos efeitos no coração e no controle de peso, pesquisas também indicam melhora na saúde do fígado. Em um estudo de 72 semanas, 63% dos pacientes apresentaram redução da inflamação hepática. Nos EUA, a semaglutida já tem aprovação para tratar formas graves de doença hepática; no Brasil, a indicação ainda aguarda avaliação da Anvisa.

O acúmulo de gordura no fígado, quando ultrapassa 5%, pode evoluir para hepatite gordurosa, cirrose e até câncer hepático, reforçando a importância do tratamento adequado.

Como a substância age no organismo

A semaglutida imita o GLP-1, hormônio produzido pelo intestino que envia sinais ao cérebro para controlar o apetite. Naturalmente, o GLP-1 é degradado rapidamente pela enzima DPP4, mas a versão sintética resiste por mais tempo, proporcionando saciedade prolongada.

Por isso, medicamentos com semaglutida precisam ser utilizados com orientação médica e dentro de uma estratégia de tratamento.

De acordo com o estudo STEP 1, publicado no The New England Journal of Medicine, doses de 2,4 mg (Wegovy) promovem perda de peso média de 17%, e cerca de um terço dos pacientes ultrapassa 20% de emagrecimento.

Fonte: G1

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