Cientistas identificaram um mecanismo até então desconhecido no funcionamento do sistema imunológico humano. O estudo, publicado na revista científica Nature Communications, descreve um processo pelo qual células de defesa conseguem acessar o núcleo de células em colapso e retirar fragmentos de DNA. Esse material genético, ao ser internalizado, aciona um potente sinal inflamatório.
Os pesquisadores batizaram o fenômeno de nucleocitose.
O que foi descoberto
Já se sabia que o sistema imune possui sensores capazes de detectar DNA estranho dentro das células como o de vírus. Quando esse material é identificado, a célula ativa a produção de interferon, molécula essencial na resposta contra infecções.
A questão que intrigava os cientistas era outra: como o DNA do próprio organismo, liberado durante a morte celular, poderia disparar esse mesmo alarme?
A nova pesquisa mostrou que os macrófagos, células especializadas na defesa do organismo, vão além da simples remoção de detritos celulares. Em vez de apenas engolirem a célula morta (processo conhecido como fagocitose), eles estendem projeções semelhantes a “braços” que alcançam diretamente o núcleo da célula moribunda. Ali, retiram fragmentos de DNA.
Uma vez dentro do macrófago, esse DNA ativa os mesmos sensores usados para detectar vírus, desencadeando produção de interferon e resposta inflamatória.
Como funciona a nucleocitose
Diferentemente da fagocitose tradicional, a nucleocitose envolve etapas específicas:
- A célula imune se conecta ao núcleo da célula em colapso;
- Projeções celulares penetram o núcleo;
- Fragmentos de DNA são extraídos;
- A via inflamatória é ativada.
Os pesquisadores conseguiram registrar o fenômeno em tempo real em laboratório, confirmando que se trata de um processo ativo e direcionado.
O papel da hidroxicloroquina
Outro ponto relevante do estudo envolve a hidroxicloroquina, medicamento utilizado no tratamento de doenças autoimunes como lúpus e artrite reumatoide.
Em experimentos laboratoriais, a droga foi capaz de induzir o colapso celular ao interferir nos lisossomos estruturas responsáveis pela “reciclagem” interna da célula. Quando esses compartimentos deixam de funcionar adequadamente, proteínas passam a se acumular no núcleo, sinalizando que algo está errado.
Nesse contexto, os macrófagos entram em ação e realizam a nucleocitose. Segundo os autores, parte dos efeitos imunológicos da hidroxicloroquina pode estar associada a essa ativação indireta da via do interferon.
Possíveis implicações clínicas
A descoberta pode ajudar a explicar a chamada “assinatura de interferon”, observada em diversas doenças.
- Doenças autoimunes: Em condições como o lúpus, o sistema imune reage contra componentes do próprio corpo. A nucleocitose sugere que o DNA liberado por células em morte pode servir como gatilho contínuo de inflamação.
- Inflamações crônicas: Em doenças intestinais ou pulmonares com morte celular persistente, o excesso de DNA nuclear disponível pode alimentar respostas inflamatórias prolongadas.
- Câncer: A ativação do interferon pode favorecer o reconhecimento de tumores pelo sistema imune, mas inflamação contínua também pode contribuir para progressão tumoral, dependendo do contexto.
- Infecções virais: Como o interferon é crucial no combate a vírus, processos que estimulem a nucleocitose podem potencialmente ampliar a resposta antiviral.
Um avanço na imunologia
O DNA não atravessa livremente a membrana celular, o que sempre dificultou a compreensão de como o material genético de células mortas poderia alcançar sensores internos das células imunes.
O estudo demonstra que esse processo não é passivo: trata-se de uma ação ativa, coordenada e estruturalmente complexa das células de defesa.
Ao esclarecer como o próprio DNA pode acionar o sistema imune, a descoberta abre novas perspectivas terapêuticas tanto para modular inflamações excessivas quanto para potencializar respostas antivirais e antitumorais.
Fonte: G1
