Um documento histórico recém-divulgado pelo Centro de Memória da Fazenda (CM), da Secretaria da Fazenda do Ceará (Sefaz-CE), lança nova luz sobre o papel de Padre Cícero Romão Batista no desenvolvimento econômico do estado. Muito além da figura religiosa e política já conhecida, o material mostra o sacerdote como agente ativo em políticas públicas voltadas à pecuária no início do século XX.
Datado de 1923, o requerimento foi enviado por Padre Cícero ao então presidente do Estado, Ildefonso Albano — cargo equivalente ao de governador atualmente. Na correspondência, ele solicita a liberação de um prêmio previsto em lei para a compra de gado reprodutor, como parte de um programa estadual de modernização da agropecuária.
A iniciativa estava prevista na Lei nº 2009, sancionada em 16 de outubro de 1922, que estabelecia subsídios para a aquisição de touros de raças nobres, com o objetivo de fortalecer a produção bovina no Ceará. O valor do incentivo correspondia a 30% do custo de um touro Nelore, o que representava, na época, cerca de 435$000 réis — equivalente a aproximadamente R$ 36 mil em valores atuais.
“Esse documento revela uma faceta muitas vezes esquecida de Padre Cícero: a de articulador político e participante de políticas públicas de fomento à economia regional. Ele não era apenas um líder espiritual, mas alguém profundamente envolvido com os desafios do desenvolvimento local”, afirma o historiador Fabrício Monteiro, coordenador da equipe educativa do Centro de Memória da Fazenda.
O material passou por um processo de restauro e agora integra o acervo expositivo do museu mantido pela Sefaz-CE, disponível para visitação e pesquisa.
Legado além da fé
Figura central da religiosidade popular nordestina, Padre Cícero Romão Batista também marcou presença na história política do Brasil. Conhecido por sua liderança na Sedição de Juazeiro (1914) e pelo protagonismo na região do Cariri, sua trajetória é cercada de admiração, polêmicas e, mais recentemente, movimentos por sua canonização.
Em 2025, a Diocese do Crato concluiu a etapa diocesana do processo de beatificação do sacerdote, com o envio de um extenso dossiê ao Vaticano. O material inclui mais de 10 mil páginas de análises, testemunhos e escritos do próprio Padre Cícero, cuja decisão final cabe ao Papa.
A revelação deste novo documento reforça a imagem de um líder multifacetado, que transitava com autoridade entre os universos da fé, da política e da economia. E reitera, mais de um século depois, sua relevância para a história e identidade do povo cearense.
