Uma descoberta fossilizada em âmbar de 99 milhões de anos revelou um cenário digno de filme de terror: uma mosca pré-histórica com um fungo semelhante a um cogumelo brotando de sua cabeça. A imagem assombrosa preserva o que é um dos exemplos mais antigos conhecidos de fungos parasitas zombificando insetos, fenômeno que inspirou a franquia “The Last of Us”.
O achado, feito por pesquisadores do Instituto de Paleontologia da Universidade de Yunnan, na China, inclui também uma jovem formiga infectada por fungo semelhante. Ambas as criaturas estavam envolvidas em âmbar, o que permitiu a preservação quase perfeita dos detalhes dessa interação mortal entre parasitas e hospedeiros. O estudo foi publicado em 11 de junho na revista científica Proceedings of the Royal Society B.
Com auxílio de microscopia óptica e tomografia computadorizada em alta resolução, os cientistas identificaram duas novas espécies extintas do gênero Ophiocordyceps, conhecido por sua habilidade de manipular o comportamento de insetos. A espécie que infectou a mosca foi batizada de Paleoophiocordyceps ironomyiae, e a da formiga, Paleoophiocordyceps gerontoformicae. O estudo sugere que esses fungos já atuavam como reguladores ecológicos há dezenas de milhões de anos, zombificando e matando seus hospedeiros para se reproduzirem.
Fungos do gênero Ophiocordyceps ainda existem hoje e são conhecidos por infectar formigas, forçando-as a abandonar suas colônias, subir em vegetações e morrer em posições estratégicas que favorecem a liberação de esporos. No caso da mosca fóssil, a zombificação é considerada particularmente rara, já que os parasitas modernos tendem a atacar menos esses insetos.
Segundo os pesquisadores, os fungos provavelmente mataram os hospedeiros antes de ambos ficarem presos na resina da árvore que formou o âmbar. Apesar da aparência bizarra, essas interações representam um mecanismo natural importante no controle populacional de insetos e fazem parte da complexidade ecológica dos ecossistemas do período Cretáceo.
A procedência do âmbar utilizado no estudo também foi abordada, diante das preocupações sobre o comércio de fósseis provenientes de regiões em conflito. Os autores informaram que as amostras foram obtidas em mercados de Myanmar antes de 2017 e que não há indícios de ligação com disputas armadas.
A descoberta reforça a ideia de que mesmo há quase 100 milhões de anos, o mundo natural já era palco de relações simbióticas e estratégias de sobrevivência extremamente sofisticadas — e, em alguns casos, absolutamente assustadoras.
