O colapso silencioso do gelo polar ameaça metas climáticas do planeta

A pesquisa, conduzida por um consórcio internacional de cientistas, combinou dados de satélites
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Mesmo que a humanidade consiga conter o aquecimento global dentro do limite de 1,5 ºC — meta que muitos cientistas já consideram inalcançável — o futuro das calotas de gelo da Groenlândia e da Antártida parece selado. Um novo estudo publicado nesta terça-feira (20) na revista Communications Earth and Environment revela que o derretimento das calotas polares está a caminho de se tornar irreversível, levando a um aumento catastrófico do nível do mar e à migração forçada de centenas de milhões de pessoas.

A pesquisa, conduzida por um consórcio internacional de cientistas, combinou dados de satélites, modelos climáticos, núcleos de gelo, sedimentos oceânicos e até DNA de organismos marinhos antigos para entender quão sensíveis são essas massas de gelo às mudanças de temperatura. O resultado aponta para uma conclusão alarmante: mesmo o nível atual de aquecimento, de aproximadamente 1,2 ºC acima dos níveis pré-industriais, já pode ser suficiente para desencadear um recuo acelerado das calotas de gelo.

Desde os anos 1990, a perda de gelo polar quadruplicou, com uma média de 370 bilhões de toneladas derretidas por ano. Esse processo é atualmente o principal fator por trás da elevação do nível do mar, cuja taxa anual dobrou nas últimas três décadas. Projeções indicam que os oceanos podem subir cerca de 1 centímetro por ano até o final deste século. Parece pouco, mas em uma escala centenária, isso representa um metro — o suficiente para transformar em refúgio climático cada cidade costeira do planeta.

A maior parte da população global vive próxima ao nível do mar. Mais de 230 milhões de pessoas habitam regiões a menos de um metro de altitude. Para elas, o avanço das águas não será uma ameaça abstrata: será uma realidade física e inescapável. Como alerta Jonathan Bamber, um dos autores do estudo, o mundo está prestes a presenciar uma migração terrestre em massa sem precedentes desde o início da civilização moderna.

A maior incerteza, segundo os cientistas, está em quando exatamente os pontos de inflexão serão atingidos. As mudanças climáticas não seguem uma lógica linear, e o colapso de uma calota de gelo pode ser abrupto, inesperado e impossível de reverter em escalas de tempo humanas. Inicialmente, estimava-se que a calota da Groenlândia resistiria até 3 ºC de aquecimento. Agora, acredita-se que a desestabilização possa ocorrer já com 1,5 ºC — ou até menos.

Evitar um colapso total exigiria conter o aquecimento a 1 ºC acima dos níveis pré-industriais. Isso significaria uma mudança radical na matriz energética global, com cortes profundos no uso de petróleo, carvão e gás. Mas a atual realidade política e econômica aponta na direção oposta. Países continuam investindo em combustíveis fósseis, mesmo diante do agravamento das projeções científicas.

Para os autores do estudo, não se trata de abandonar as metas climáticas. Cada fração de grau evitada ainda faz diferença. Contudo, é preciso enfrentar a verdade desconfortável de que limitar o aquecimento a 1,5 ºC — embora desejável — não basta para impedir o derretimento do gelo polar nem o avanço do mar.

Segundo Chris Stokes, glaciologista da Universidade de Durham, o melhor cenário que se pode esperar agora é um aumento lento e constante do nível dos oceanos. Mas até isso exigirá esforços que, até o momento, o mundo parece incapaz de realizar. O colapso das calotas polares pode não acontecer da noite para o dia — mas está em curso, silencioso, implacável e com consequências que redesenharão os contornos do planeta.

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