A eletricidade pode ter sido o gatilho para o surgimento da vida na Terra, mas não da forma espetacular representada no clássico filme “Frankenstein” de 1931. Em vez de raios gigantescos cortando os céus e desencadeando uma centelha criadora nos oceanos primitivos, um novo estudo sugere que microrrelâmpagos quase invisíveis, formados em gotículas de vapor d’água, podem ter sido os responsáveis por iniciar a química da vida.
Pesquisadores revisitaram um experimento histórico de 1953, conduzido pelos cientistas Stanley Miller e Harold Urey, que recriou a atmosfera primitiva da Terra e aplicou descargas elétricas, resultando na formação de aminoácidos. No estudo atual, publicado em março na Science Advances, os cientistas focaram em interações elétricas em uma escala ainda menor, analisando as cargas trocadas entre gotículas de água microscópicas.
Os testes revelaram que essas minúsculas faíscas eram capazes de romper ligações químicas e criar compostos orgânicos essenciais, como glicina e uracila, fundamentais para a formação das proteínas e do RNA. Essa descoberta reforça a teoria de que a vida pode ter surgido a partir de processos puramente químicos, sem a necessidade de eventos catastróficos ou raros.
Diferente dos relâmpagos atmosféricos, que são imprevisíveis e pouco frequentes, os microrrelâmpagos gerados em névoas de água podem ter ocorrido de maneira constante, oferecendo um ambiente mais propício para a formação e acúmulo de moléculas complexas. Se a vida realmente surgiu dessa forma, então os primeiros passos da evolução podem ter sido silenciosos, invisíveis e impulsionados por faíscas minúsculas dentro de gotas d’água.