Organizações filantrópicas do Ceará vêm enfrentando um cenário de incerteza após denúncias de irregularidades no programa de doações “Conta Contigo”, operado pela Enel Ceará. A distribuidora de energia foi multada pelo Ministério Público do Estado por falhas no sistema de arrecadação, entre elas a ausência de transparência sobre taxas cobradas e relatos de descontos indevidos nas contas de energia.
O programa, que permite aos clientes realizarem doações a instituições diretamente pela fatura de luz, conta com 32 organizações cadastradas. No entanto, desde a repercussão do caso, no dia 30 de junho, ao menos uma ONG já registrou cancelamentos. A Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis), que atua na proteção de espécies ameaçadas, relata queda nas contribuições e teme o impacto direto na continuidade dos projetos.
Segundo o vice-presidente da Aquasis, Marcílio Maia, a repercussão do caso gerou desconfiança nos doadores. “Vemos com tristeza esse momento. Muitas famílias têm solicitado o cancelamento, pois desacredita a seriedade do programa”, afirmou. Para ele, apesar de os termos contratuais preverem a cobrança de taxas pela Enel, a falta de informação ao consumidor compromete a credibilidade da iniciativa.
O mesmo receio é compartilhado por Vladimir Spinelli, provedor da Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza, que também participa do programa. A instituição, que realiza atendimentos médicos, exames e cirurgias, teme que a situação afaste doadores e prejudique a manutenção dos serviços prestados.
O contrato entre a Enel e as instituições prevê que a distribuidora retém 10% do valor das doações, além de uma taxa variável para cobrir os custos operacionais. No entanto, a cobrança não era comunicada aos doadores, o que foi um dos pontos levantados pelo MPCE. A empresa também é acusada de falhar no controle de autorizações e dificultar o processo de cancelamento.
A Enel Ceará informou que o cancelamento das doações pode ser feito a qualquer momento por meio dos canais de atendimento da distribuidora ou da instituição beneficiada. Já as ONGs destacam que sempre disponibilizaram formas acessíveis de contato para que os doadores pudessem revisar ou encerrar sua participação.
Enquanto o programa passa por escrutínio, organizações parceiras buscam manter o vínculo com seus apoiadores e reforçar a transparência. Ainda assim, paira o temor de que o desgaste gerado pelo caso comprometa não apenas o modelo de doações via conta de luz, mas também a sustentabilidade de iniciativas essenciais à população.
