A prisão preventiva de um policial militar acusado de matar uma mulher em Cariré expõe uma contradição que revolta e fragiliza a confiança da população no sistema de Justiça. Horas após ser preso em flagrante por um crime grave, o suspeito foi colocado em liberdade durante audiência de custódia. Somente depois da forte repercussão, da manifestação do Ministério Público e da indignação pública, a prisão preventiva foi decretada.
É evidente que toda pessoa tem direito ao devido processo legal e à presunção de inocência. Mas esses princípios não podem ser interpretados de forma desconectada da realidade. Quando há uma morte provocada por disparos de arma de fogo, indícios de embriaguez, relatos de discussão e possíveis antecedentes de conflito envolvendo a vítima, a decisão de liberar o suspeito transmite uma mensagem perigosa: a de que a gravidade de um crime pode ser relativizada diante de formalidades.
A justificativa de que o acusado é tecnicamente primário e de que a prisão deve ser a última alternativa pode ter respaldo jurídico, mas causa perplexidade diante das circunstâncias apresentadas. Não se trata de um delito menor ou de uma acusação sem elementos iniciais. Trata-se da morte de uma mulher, em um espaço público, supostamente causada por alguém que tinha treinamento, acesso e responsabilidade sobre uma arma de fogo.
O fato de o acusado ser policial militar torna o caso ainda mais sensível. A sociedade espera que agentes de segurança sejam exemplo de equilíbrio, responsabilidade e respeito à vida. Quando um policial é apontado como autor de uma tragédia, a resposta das instituições precisa ser firme, rápida e transparente. Não por vingança, mas para garantir que a lei seja aplicada com o mesmo rigor para todos.
A nova decisão que determinou a prisão preventiva corrige, ao menos parcialmente, uma situação que já havia provocado indignação. No entanto, permanece a pergunta: por que foi necessário tanto clamor para que a gravidade do caso fosse reconhecida?
A vítima não pode ser reduzida a mais um número nas estatísticas de violência. Sua morte exige investigação séria, julgamento justo e responsabilização, caso a autoria e as circunstâncias sejam confirmadas. Justiça tardia pode até chegar, mas nunca apaga a dor de uma família nem devolve uma vida perdida.
