O alerta do Tribunal de Contas da União (TCU) não é apenas um relatório técnico. É um aviso de que o governo continua empurrando um problema bilionário para debaixo do tapete. Durante anos, exigiu-se que os Correios mantivessem um serviço universal, chegando aos lugares mais distantes do Brasil, mas sem criar uma fonte de financiamento capaz de sustentar essa obrigação.
O resultado era previsível. A estatal gasta muito mais do que arrecada para cumprir uma missão que beneficia todo o país. Agora, o próprio TCU aponta que esse modelo está estruturalmente desequilibrado e que, se nada mudar, o rombo poderá acabar recaindo sobre os cofres públicos. Traduzindo: quem pode pagar essa conta é o contribuinte.
É evidente que ninguém defende abandonar comunidades isoladas ou acabar com a presença dos Correios nas pequenas cidades. O serviço tem importância social e estratégica. O problema é transformar uma obrigação de Estado em um peso quase exclusivo para uma empresa que já enfrenta mudanças profundas no mercado e queda nas receitas tradicionais.
O mais preocupante é que esse cenário não surgiu da noite para o dia. A digitalização reduziu o volume de correspondências, os custos operacionais aumentaram e, ainda assim, faltou planejamento para adaptar o modelo à nova realidade. Agora, discute-se uma solução quando a crise já bate à porta.
O governo precisa decidir: ou cria um sistema transparente e sustentável para financiar a universalização postal, ou continuará administrando uma bomba-relógio fiscal. O que não pode é manter um discurso de responsabilidade enquanto ignora um déficit que cresce ano após ano.
No Brasil, infelizmente, parece existir uma regra não escrita: quando o planejamento falha, a conta sempre encontra um pagador. E, quase sempre, esse pagador é o cidadão brasileiro.
