Estudo revela que tamanduás-bandeira em cativeiro enfrentam risco de doenças cardíacas

O resultado evidenciou um padrão recorrente de alterações cardíacas nos animais estudados
Compartilhe

Antes amplamente distribuído por quase todo o Brasil e América do Sul, o tamanduá-bandeira é hoje uma das espécies ameaçadas de extinção e enfrenta riscos que vão além da degradação do habitat natural. Um estudo realizado por universidades federais brasileiras aponta que, ao serem resgatados e levados para cativeiros ou zoológicos, esses animais desenvolvem com frequência doenças cardíacas graves, potencializadas por dificuldades alimentares.

A pesquisa, publicada no Journal of Zoo and Wildlife Medicine, foi conduzida pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), com apoio da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Ao longo de seis anos, pesquisadores avaliaram as condições cardíacas de tamanduás-bandeira mantidos em cativeiro e compararam com dados de animais de vida livre. O resultado evidenciou um padrão recorrente de alterações cardíacas, especialmente em indivíduos afastados de seu ambiente natural.

Segundo o professor Sávio Amado da Silva, do Departamento de Ciências Fisiológicas da UFRRJ, o estudo marca um avanço importante para a conservação da espécie. O levantamento permitiu definir parâmetros específicos de ecocardiografia — exame de imagem que avalia o funcionamento do coração — fundamentais para diagnosticar precocemente quadros de cardiomegalia e outras doenças. Esses dados são considerados chave para aumentar a eficácia no tratamento e acelerar a recuperação dos animais, favorecendo sua reprodução e a manutenção das populações.

A causa das doenças cardíacas está diretamente relacionada à dificuldade em reproduzir a dieta natural dos tamanduás em ambiente controlado. O professor Pedro Eduardo Brandini Néspoli, do Hospital Veterinário da UFMT e principal responsável pelo estudo, explica que a alimentação da espécie é baseada em formigas, cupins e outros insetos, o que torna sua replicação em cativeiro uma tarefa quase impossível. A alternativa tem sido o uso de rações balanceadas, que nem sempre suprem as necessidades nutricionais específicas do animal.

Essa deficiência alimentar vem sendo observada com mais frequência desde que o zoológico da UFMT foi transformado em Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), onde muitos animais passaram a apresentar sinais de insuficiência cardíaca. A equipe então iniciou uma série de exames ecocardiográficos, identificando o aumento das cavidades cardíacas e uma possível redução na contratilidade do coração, algo até então não documentado na literatura científica.

Para confirmar os achados, foram analisados também animais saudáveis de vida livre. A comparação ajudou a estabelecer um padrão confiável de contratilidade e uma correlação entre o peso dos animais e o tamanho esperado das cavidades cardíacas. Com base nisso, os pesquisadores agora conseguem avaliar com maior precisão se um tamanduá-bandeira apresenta alterações cardíacas preocupantes ou se as medidas observadas são compatíveis com sua fisiologia.

O estudo encerra uma lacuna no conhecimento científico sobre a saúde cardiovascular da espécie e fornece uma base de dados que poderá servir como referência para novos exames e cuidados veterinários. Ao compreender melhor as necessidades específicas dos tamanduás-bandeira em cativeiro, os cientistas esperam melhorar as chances de sobrevivência e reprodução da espécie, contribuindo de forma concreta para sua preservação.

Você pode gostar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode se interessar
Publicidade